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Atenção: fator colaborativo e déficit do ego

Os modelos de trabalho remoto forçaram muitos que não integravam a lista dos serviços essenciais a procurar novas formas de alcançar pessoas a fim de conseguir administrar a vida. Isso pode parecer uma questão de regulação das finanças, à primeira vista; não é. Acho que, antes de mais nada, cabe pensar no que classificaram como essencial. Barbearias? Pelo amor de Deus. Se quiser usar desta avaliação específica para fazer comentários sobre administração, fique muito à vontade, pois estamos pertinho do mês de Outubro. Mas fato é que no meio da transformação digital, que já é complexa não por ser ininteligível, mas sim por ter perspectivas diversas, não se chegou a um consenso sobre quase nenhuma questão do uso das ferramentas sociais–evito, propositalmente, incluir o termo “mídia” para tratar das pessoas. A multiplicidade de perspectivas, inimiga do coaching, da tia do zap que nunca ouviu O Céu é Muito, do Lenine (nunca perdemos uma piada, não é mesmo?) sem entrar na questão de ministérios e suas funções, parece ser um problema, e não uma solução. Os gringos, que não gostam de ser chamados de gringos (coitadinhos), têm uma expressão interessante: “it’s a feature, not a bug”. No caso, se vê muito esse tipo de frase no meio das discussões sobre cultura digital: a competitividade, num mundo capitalista, não seria diferente no social digital; é toda a graça do negócio, não causa nenhum problema. Será?

Recorro à minha pequena biblioteca. O autor era britânico, publicava isso em 1932, e só chegou aqui graças à Editora Unesp, em 2018, através da Bertrand Russell Peace Foundation. É importante falar esse tipo de coisa. Em um de seus livros, há um capítulo inteiro dedicado à ideia de competição, mas contextualizando, antes de abordar o tema da educação. Já citei esse senhor em outras oportunidades, mas olhando bem para alguns eventos recentes muito pouco inspiradores da fé na humanidade e pesquisando a nível supérfluo o que certos grupos pensam a respeito do termo “eugenia“, acho que convém transcrever o primeiro parágrafo na íntegra:

Alguns ideais dominantes do século XIX perduraram até a nossa época; outros, não. Aqueles que perduraram têm, em sua maioria, um campo de aplicação mais restrito em nossos dias do que tinham havia cem anos. Dentre eles, o ideal da competição é um bom exemplo. É um equívoco, acredito, considerar que a crença na competição se deve ao darwinismo. Na verdade, aconteceu o contrário: o darwinismo se deveu à crença na competição. O biólogo moderno, embora ainda acredite na evolução, não acredita tanto quanto Darwin que esta seja motivada pela competição. Essa mudança reflete a alteração ocorrida na estrutura econômica da sociedade. O industrialismo começou com grandes quantidades de pequenas empresas competindo entre si, a princípio com pouquíssima ajuda do Estado, que ainda era agrícola e aristocrático. Portanto, os primeiros industrialistas acreditavam na autoajuda, no laissez-faire e na competição. Da indústria, a ideia de competição disseminou-se para outras esferas. Darwin convenceu os homens de que a competição entre formas de vida foi a causa do progresso evolucionário. Os educacionistas se convenceram de que a competição na sala de aula era a melhor forma de promover a indústria entre os eruditos. A crença na livre competição foi usada por empregadores como argumento contra o sindicalismo–o que ainda ocorre nas partes mais atrasadas da América. Mas a competição entre capitalistas diminuiu de maneira gradual. A tendência é que toda uma indústria se combine nacionalmente, de forma que a competição passou a se dar sobretudo entre nações, com uma grande diminuição da competição entre as diversas empresas dentro de uma nação. Nesse interim, naturalmente, os capitalistas se empenharam–enquanto combinavam entre eles–a atrapalhar, tanto quanto possível, as combinações de seus funcionários. Seu lema tem sido: ‘Unidos, venceremos; divididos, eles cairão’. Desse modo, a livre competição foi preservada como um grande ideal em todas as áreas da vida humana, excetuando-se as atividades dos magnatas industriais. Quanto a esses, a competição é nacional e, portanto, toma a forma do estímulo ao patriotismo.

Bertrand Russell, “Competição na educação”. In: Educação e ordem social (2018). Editora Unesp. (p.143)

Aí, amizade, cabe ao leitor ou à leitora tirar conclusões, e pesquisar sobre a expressão francesa. Machado de Assis era erudito, assim como Dostoiévski, dentre outros exemplos. Não é a questão do acesso (que se argumente); mas sim o panorama, a visão. Sem acesso a outras perspectivas, não tem panorama ou visão–mas talvez (teoria razoável) essa seja uma ideia impugnada. A visão é natural de cada um (não falo do ponto de vista clínico, mas poderia). O panorama, talvez, seria algo que Noam Chomsky se interessaria em discutir, sendo o linguista responsável pela disseminação de termos como “inerente” e “inato” para falar de todas as qualidades com as quais as pessoas já nascem. Na verdade, não sou leitor de Chomsky; apenas conheço suas fundamentações através de comentadores, uma entrevista ou outra (dentre elas, a clássica com Foucault, que deixo aqui). Mas não, a responsabilidade pela disseminação de uma teoria e a interpretação da mesma em forma de texto, além das outras formas que tomam (o comentário oral sobre o texto, por exemplo), não é necessariamente do autor. Só não precisamos falar da Section 230, mas cabe uma pesquisa. O que Chomsky diz é que nascemos com a capacidade de cognição. Só isso. E muito mais, é claro. A teoria da “gramática universal” é complexa, mas o quanto estamos experimentando no campo da Linguística Aplicada, mesmo que informalmente, para argumentar que o jovem é muito bem informado?

O que todo pai e toda mãe quer, além de ver seu filho ou filha numa boa faculdade, com a vida encaminhada, esse tipo de coisa, é que não se metam em problemas. E aqui entra o fator de interesse: o problema é que as pessoas não percebem o nível de tensão da vida da criança de hoje. Não vamos brincar de soletrar, mas seria importante. Vamos fazer o que, discutir como foram construídas as nações? Acho que cabe mencionar que um passatempo dos adultos muito popular é a variedade dos jogos de palavras (Coquetel manda lembranças), como destacou matéria da NBC, e foram inventados muitos formatos. Mas o que o adolescente quer é uma outra questão. A criança? Num país em que investimentos em cultura são barrados, fica difícil prever. Inclusive, não é só aqui: existem os que argumentem que não deveria existir atuação conjunta do Estado e das entidades culturais. Mas será que a atenção dos pais e a atenção dos filhos deveria se voltar às mesmas temáticas, fontes, filosofias, estilos de vida, estéticas, linguagens, e que não esqueçamos, pessoas? Não seria egoísta não lhes permitir a diferença–talvez até autoritário? Talvez, mas é inegável que a necessidade e urgência de atenção para si já passou de um estágio epidêmico. O bom é que existe a semiótica, a morfologia, o professor…