Sobre a proposta

Antes de começar esse projeto de ensino, pesquisei referências acadêmicas que talvez sejam familiares para quem faz graduação na área, mas não para o público geral. Resumo aqui alguns pontos.

A tríade comunicativa de Fairclough (1992) merece, tanto para o leitor atento como quem veja nela um interesse modernizante, justa revisão. Em um grande movimento dos tipos de análise em plano discursivo, observando-se a influência das dicotomias clássicas do estudo linguístico — fala e escrita foram objeto de pesquisa de muitos especialistas no Brasil, quase sempre em associação aos conceitos de registro e formalidade — temos a comunicação como desafio da segunda década do milênio. Segundo o britânico, os meios da informação respeitam os seguintes níveis: produção, distribuição e consumo; no entanto, como identificar, nesse grande círculo, conceitos transitórios como identidade e tradição, e, pensando na rede atual, os caminhos da mídia e da educação, que desafia os paradigmas do convívio?

É arriscado, senão ingênuo, dizer que meio e mensagem no contexto virtual funcionam em colaboração fundada no ato de aprovar ou desaprovar: existem vertentes do discurso, em especial a multi-modalidade (Kress, 1996), que tratam o simbólico de maneira ampla, contemplando o que chamamos de design como uma quase onipresença, apesar de os dados de usuários revelarem a exclusão como fator mais essencial em diversas áreas de trabalho e conhecimento; os novos letramentos tendem a seguir atualizações, mas o enfoque exige produção de conteúdo original; a análise crítica perde referências, ao passo que os domínios populares reconfiguram, anonimamente, o que entendemos por excesso, variedade e controle; a cidadania faz do público e do privado uma divisão necessária, enquanto os níveis hierárquicos da educação raramente se discutem em termos de motivação, num cenário em que pais e responsáveis colecionam discordâncias.

Poderia-se propor um molde para a produção de conteúdo nas redes sociais, economias virtuais e cadeias de entretenimento; caberia, porém, uma separação e classificação adequada, com apoio em bases estatísticas. O pesquisador há de se perguntar: quais são os dados na minha região? Quais são os dados em outros estados? Tenho contato com alguém de lá? Com essas novas conexões, tratarei minhas descobertas de maneira homogênea ou heterogênea? Como mensurar qualitativa e quantitativamente conteúdo específico sobre materiais de ensino?

Entre dados criptografados, senhas esquecidas, grupos rejeitados, aplicativos nunca experimentados, versões em desenvolvimento e aqueles livros na fila para agregar valor consciente, a mídia que conhecemos é, por vezes, contradição e reflexo do que temos em mente. Não basta ter informação: é preciso entrar no jogo e tomar partido, embora não se saiba ao exato como dialogar com os interesses das instituições financeiras e governamentais.

Voltando-nos à década de 1970, período em que o Brasil se movia na infelicidade de viver o regime militar, das tensões entre Ocidente e Oriente acima da linha do Equador e de forte atuação da arte popular — Plínio Marcos oferece classificação reveladora sobre o elitismo permeante ao fazer artístico — bem como das articulações nacionais, um estudo busca mapear a fala em minúcias: Labov, um químico industrial, procura definir sotaque e ideoleto (existe ideologia no dialeto?), compilando a produção de vogais na ilha de Martha’s Vineyard, classificando a fala como “conhecimento intersubjetivo”. Vai além: após a análise do material, sugere reflexão sobre “a língua como é utilizada no dia-a-dia pelos membros da ordem social”. Em sua introdução da obra Sociolinguistic Patterns (1972), que conversa com o Projeto NURC de Dino Preti, infere-se que a linguagem contextualizada opera circundando as relações e o significado. Se parece óbvio, ele alerta: o texto pode enganar; assim, aponta que a literatura, de maneira geral, prova que temos barreiras ideológicas. Cabe perguntar: quem explicaria as referências de tal análise crítica, trazendo embasamento?

A solução para o problema passa a ser a disputa entre micro e macro. Considerando conflitos de gerações e os embates da apresentação, da atratividade, do apelo sinestésico, da exposição visual e dos posicionamentos de pais e responsáveis sobre o mundo das coisas da rede que conhecemos hoje, faz-se necessário relembrar a história da comunicação periodicamente, sem, contudo, perder de vista o contexto da negociação de valores da fala e da escrita (Derrida, 1967); das animações e dos filmes; da música e das técnicas; dos amadores que tentam de tudo; dos sistemas e suas regras; dos jogos e sua produção, além do financiamento; da grande temática do vício e da dependência, onde todos buscam o melhor para si e seus próximos.

Convém lembrar: superamos o panóptico com uma expressão rude: “nobody cares”, ou, em inglês, “ninguém liga”; mas quem disse que relevância e influência digitais deixaram de ser o pano de fundo do debate social e da crítica estrutural? O problema de enfoque na pesquisa em educação, cultura e sociedade é, de fato, a falha contextual; mas não é útil desassociar imagem, texto e autoria a fim de produzir resultado positivos para os humores da nova geração?

As postagens engajadas são exponenciais. Nas linhas tênues entre meio e mensagem, na codificação comunicativa e nas reações das audiências, conclui-se ser melhor ler do que escrever, e, assim, aprendemos. Se o fazer artístico se relaciona à divulgação de conteúdo, é bom lembrar que a fórmula de uma gravação, por exemplo, traz consigo uma incógnita cognitiva: como foi que chegaram nisso? Enfim, compartilhamos. Foi útil? Fez uma diferença significativa, positiva, que abriu caminhos para melhorias da vida em grupo, em parcerias, acordadas e férteis? Defendo que, com essas preocupações, pode-se construir material de qualidade, com menos choques de cultura e mais entendimento sobre diferenças básicas de idade, disposição, áreas de interesse e, sobretudo, consciência criativa.

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