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Quantidade ou qualidade? A falsa polarização da conversa nas mídias sociais

Como professor de inglês, eu sempre vou cair no modismo: as portas se abrem ao descobrir as possibilidades de interação com o mundo, seu salário vai ser no mínimo 30% maior, você vai viajar para lugares que sempre sonhou conhecer e ter a experiência da troca cultural na pele. Mas espere um pouquinho: na pele? Na pele é quando a gente toca, e se tratando de interação com pessoas, esperamos não falar de sexo — até porque isso não pode ser publicado sem documentação assinada (e é claro, confesso que é uma piada com a situação atual deste blog). Fato é que os jovens estão escolhendo suas próprias mídias, e já entenderam que o Twitter é lugar para adultos. Não estamos discutindo teses acadêmicas no Facebook, nem receitas de bolo no TikTok (na falta de Trakinas); mas queremos, em todos os ambientes que escolhemos habitar, conversas com pessoas que se importam com a gente. Será que encontramos isso?

Essa é uma proposta de debate. Já mencionei em vídeos os aplicativos Wink e Hoop; mas as minhas críticas ao Snapchat, acreditem ou não, fizeram a plataforma me banir do aplicativo permanentemente (se foi alguma outra entidade, sinceramente não estou em condições de comentar, pois não se faz análise sem dados). São ideias simples que têm como motivação principal o contato entre pessoas que, ao contrário dos aplicativos de namoro, são do mundo inteiro. Uma questão que vai além, talvez, da percepção da maioria de pessoas que usa os serviços (que já passam por dificuldades) é a construção do algoritmo. É muito evitado se falar no Omegle ou mesmo na versão adulta (anterior a todas as mídias sociais e inclusive aos principais sites de pornografia) da conversa por webcam, mas não é disso que se trata. São pessoas que trocam mensagens, dizem de onde falam, e daí não sabem mais conversar sobre nada. Os contatos ficam ali, no seu aplicativo (seja o Instagram, seja o Snapchat, ou mesmo o que alguns vêm sugerido, como Telegram, Line ou até mesmo RingSmiley, uma versão asiática dentre os muitos aplicativos de conversas entre estranhos). Desde o Olive, uma espécie de freemium para vídeo, até o Boo (este com o apoio da Psychology Today), existem muitas tentativas de injetar comunicação com estranhos estrangeiros nas mídias sociais recentes. Nenhuma delas parece ter pensado o suficiente na seriedade do projeto, simplesmente oferecendo uma distração.

Mesmo quando ficamos em nosso próprio círculo de amizades, informações chegam de todos os cantos. Se você não produz nada, você consome, com certeza. Até uma pessoa que lê a Bíblia todo dia e escolhe ouvir as palavras da Paróquia ao invés do seu YouTuber favorito vai passar por anúncios e memes, mesmo porque a publicidade já se apropriou dessa linguagem. O que devemos observar é que também as Paróquias estão nas mídias sociais, e não importa se tiverem perfil: de onde vêm as mensagens animadas com palavras do Senhor, com um coelho sorridente lhe desejando um bom dia? Não queremos coelho, queremos outra coisa (e aqui deve se alongar a vogal para entendimento do implícito). Tudo bem, talvez nem sempre. Mas o embate está no hábito e na experiência: ao se procurar um relacionamento, abandona-se a vida de muitos para muitos, e se dedica àquela pessoa ao máximo do tempo disponível. Se souberem dosar e ter conversas úteis e agradáveis, com respeito e entendimento da história de cada um, ótimo. Se não, vão se trocar acusações de que um conheceu “quem é de verdade” o outro, e isso não leva a nada. A única coisa sobre a qual devemos estar alerta é que também nossas conversas, não importa a qualidade ou a quantidade, estão sendo avaliadas por terceiros, apesar de todo o discurso empresarial e parte do legal (alguns de nós leem os termos de uso) dizerem que não. Quem define isso é outra instância, e em muitos casos, se houver algo de errado, há de se lutar para provar que a acusação pode ter sido falsa, e quem sofreu injúria foi a parte acusada. Mas quando isso toma proporção massificada, temos basicamente uma crise de saúde pública, além de segurança, que hoje é determinada pelas grandes empresas de tecnologia, para o bem ou para o mau.

Quais são, afinal, os erros comuns no contato com o estrangeiro?

Eu escrevo bastante sobre cultura digital. Tenho longos desenvolvimentos de teorias sobre as redes sociais, considerações sobre sua história, dados estatísticos tirados de um site aqui, outro ali; mas a tal da participação, que deveria promover, faço pouco. Falo, de fato, de muitas experiências minhas e do conceito de participação na vida estrangeira, mas são comentários superficiais ou muito pouco claros, remetendo a histórias complexas e que deveriam ser pessoais. Um erro de estratégia? Não sei. Como aponto na homepage do site (estão aí dois estrangeirismos, um deles já muito integrado à nossa vida), as redes sociais estão mudando. Ou seja: as histórias pessoais se tornaram, conforme já apontei quando falei sobre a monetização das conversas privadas, que foi decisão corporativa e teve medidas jurídicas, parte de uma nova hierarquização da internet. O que interessa falar sobre é, de repente, o que todos falam, apesar de sempre ter sido dessa forma; a diferença é que há uma complexidade nas interações e nas referências que são trocadas que só se intensifica, e se não incentivarmos a troca cultural, não incentivamos nada. Como abordo também, isso abre caminho para rotas perigosas, lidando com robôs e tipos de scams que não desejamos lidar (e poderia falar sobre coisas pessoais, mas não é o caso).

A possibilidade de fazer laços de amizade, de ter um flerte, de falar da mesma coisa, de encontrar alguém com os mesmo interesses, só faz crescer a vontade de participar do mundo conectado, mas o mundo mesmo: não é o bairro vizinho, é o país lá do outro lado do planeta. E assim caminhamos, mas sem bases para que possamos conversar mesmo, trocar ideia numa boa, com pessoas que não vão interagir com agressividade, malícia, más intenções ou mau comportamento em relação a nós, ficamos um pouco sem rumo. Como isso tudo vai fazer sentido? E se eu tiver, de fato, uma amiga da Suécia e outra do Camboja, mas não souber conversar sobre nada com elas? E se o menino que eu conheci num jogo parece ser gente fina, mas o maluquinho indiano que me adicionou não tem nada a ver comigo, e não vale a pena investir meu tempo nisso? Como administrar essa nova rede de contatos? Estamos no micro (fazemos isso com Tinder, etc), mas precisamos ir ao macro. E para muitos, isso envolve seguir uma empresa nas redes sociais, participar das discussões sobre um assunto levantado num painel ou no noticiário. E aí?

Eu fiz uma lista que considero razoável, com uma abordagem humanística, e esclarecendo pontos em comum das diversas gerações que interagem na web, não sem pontos de fricção. Espero que as reflexões lhe ajudem. Afinal, quais são os erros comuns no contato com o estrangeiro? Vejo muito os seguintes:

1. Criar expectativas de uma longa amizade

Muitos dos nossos contatos duram menos de um segundo, ou alguns. São pessoas que cruzam o nosso caminho, e nunca mais vemos. São todas aquelas pessoas da seção de comentários, das lives, dos streams, que clicaram no nosso perfil, que curtiram nossas fotos ou seguiram, que ligaram a webcam, que enviaram um pedido de amizade mas não aceitamos por não conhecer, que deram like numa postagem que ganhou notoriedade, mas também são as pessoas que ouvimos falar sobre, que procuramos mas não tivemos coragem de adicionar, que até demos um like, mas não puxamos assunto, que apareceram num aplicativo. É meio babaca, mas existe uma coisa chamada lei da oferta e da procura. Isso é tão babaca que teve empresa que se apropriou disso pra tentar remodelar a web, exemplo do aplicativo Plenty of Fish (no mar tem muito peixe, mas até aí não te contaram do tubarão). As pessoas vêm e vão. É difícil quando elas vão, né? Mas precisamos ter em mente que, por quaisquer que sejam os motivos, elas têm o direito de recomeçar e tentar uma nova estratégia pra chegar onde querem chegar, porque nunca foi simplesmente sobre uma nova conexão. Novamente, há uma necessidade de se pensar o macro. Mas os contatinhos, como se apelida aqui no Brasil, são muito legais de se ter. Não julguem, façam mais.

2. Esperar uma zona amigável em que ninguém julga ninguém

O julgamento é imediato. Pessoas carregam concepções consigo, e reproduzem não só a maneira de pensar de um grupo ou delas próprias, mas também seu estado emocional, que pode ser temporário, mas tem o potencial de estragar o dia de uma pessoa. O bom é que, às vezes, o que acontece é justamente o contrário: você ganha um elogio, alguém faz uma piada, e a coisa fica legal. Mas nem sempre é assim, não. São mais interações não desejadas do que desejadas, via de regra. Portanto, saber que nem sempre o humor daquela pessoa que você está conhecendo (e por favor, permita a ambos terem o espaço para que isso de fato aconteça) vai bater bem com o seu, naquele momento, naquele espaço. Preconceitos existem, coisas que ouvimos falar são reais, e a abordagem que vemos na mídia tradicional omite o linguajar por conveniência. É como se abríssemos uma caixa de pandora, ao revelar o teor do que enfrentamos nas redes. Mas ao navegar a rede (e digo isso com o risco de parecer ter 30 anos a mais do que tenho), lembre-se de reforçar a positividade para que assim seja com você também.

3. Avançar em comentários de flerte

É, realmente não dá pra ficar só olhando a menina rebolando. Não sei o que as meninas fazem, e isso parece ser um grande tabu. São menos meninas, que eu saiba, falando sobre as qualidades do menino, ou do homem, que atraem ou despertam desinteresse. Inclusive, quem faz isso parece que consegue um resultado legal nas redes (expondo relatos e conversas por completo), mas não necessariamente isso as transforma em serem humanos mais humanos. É a coisa mais legal da internet, talvez, saber que alguém tá procurando por você, e que é um desejo físico. Quando isso é satisfeito, é gostoso demais; só que não dá pra esperar isso de todo mundo, e convenhamos: tem hora que cansa, demais. Inclusive, homens e mulheres se cansam, e não tem nada a ver com sexo físico: um assunto pode se esgotar, um interesse pode mudar, uma preferência ou hábito. Achar que os perfis em redes sociais são indicadores de que estamos todos flertando com todos é a receita de uma grave crise de saúde pública (mas isso, claro, tá longe de ser mais uma teoria da conspiração). A propósito, quem faz isso profissionalmente, vale lembrar, tem que revelar uma série de coisas sobre si, e pode não ser nada agradável ter que lidar com mais uma camada de invasão de privacidade. Só não deixe de flertar. Inclusive, é legal entre amizades, se for de bom tom (como dizia aquele meme) e uma coisa saudável. Não chegue pra sua amiga de 5 anos e fale “olha os peito dessa mina, meu” na frente do namorado dela, logo depois de os dois terem discutido sobre o futuro do trabalho de cada um e se iriam continuar morando juntos. Aí não é legal. Também não vale falar que nem um anjo com aquele contato que você respeita e, no instante que a pessoa posta uma foto provocativa, mandar a sua genitália. Calma, colega. Que isso.

4. Manter contato, mas nunca conversar sobre nada

A gente tenta expandir as conexões, mas manter as conexões acaba sendo mais difícil. Você adiciona, mas depois tem que dar bom dia. E isso se repete. Tudo tem limite. Peraí. Bom, não é bem assim que a gente toma nossas decisões em relação ao grau de intimidade que a gente tem com o outro, mas tudo bem você chegar pra uma pessoa que conheceu ontem e falar sobre a doença na família, o desemprego, o seu psicológico ou relacionamento. Tem gente que vai contra. Mas quem era pra conversar com você está disponível, naquele momento? Se a resposta for não, porque não se jogar? Não gosto muito dessa expressão, mas é bem por aí: temos que saber aproveitar uma oportunidade, e às vezes cansa testar a durabilidade das coisas em todos os momentos presenciais. Eu quero saber se os meus amigos falam bem de mim quando não estou presente, o que não significa que vou xeretar nas conversas de outras pessoas (até porque nem sei fazer essas coisas), mas sentir que tá tudo legal entre a gente. E a gente vai fortalecendo as relações na construção de novos pilares. Eu posso não gostar de falar sobre política com algum dos meus contatos, mas me entender muito bem com outros. Se não for o caso, pode ser música. Pode ser relacionamento. Pode ser cultura. Eu posso ter um melhor amigo que faz piada com português e uma amiga de fora que mora na Europa e sabe como que o português é tratado e trata as pessoas. Não vale a pena ouvir os dois?

5. Se apaixonar, mas nunca considerar a vida e a rotina da outra pessoa

Volta e meia, acontece: você acha que aquela pessoa é quem te entende de verdade. Os outros não percebem nada do que você fala, como você se sente, o que já passou (pois nunca nem perguntaram) e também nunca chegaram no ponto em que querem vivenciar algo com você, mesmo que seja só ali, na tela. Isso pode ir longe, mas também pode ir longe demais. Se o que acontece na tela é mais importante do que o que a pessoa expressa, temos um problema. Se a logística parece uma coisa de outro mundo, idem. Esperar demais, não ter resposta, não ter confirmação, trabalhar sempre na indireta, nas entrelinhas, com respostas a perguntas que deveriam ser claras, mas não convencem: quando alguém se revela pra você, tem que ser de corpo e alma. É fácil ter uma relação de corpo: é só ligar a câmera. A conexão entre duas pessoas vai muito, mas muito além disso. É ouvir, é respeitar, é se preocupar, é planejar, é pensar, é falar diferente, é ser atencioso aos detalhes, é o que fica na memória e no coração. Não é o que acontece quando uma pessoa tem um orgasmo. Também não vale desligar a chamada e achar que acabou. A vida continua, mas e aí? Que vida é essa? Você conta pra pessoa o que você vai fazer? A conversa continua? Rola um “me manda mensagem quando chegar em casa”? Se não, veja que pode haver desinteresse.

6. Não procurar entender o contexto do país onde mora a pessoa

Além das coisas da vida diária, existe todo um contexto em volta da pessoa com quem você interage, da forma que for, que conta muito quando vocês conversam. Ela fala de um hotel ou de uma favela? Ela te achou porque uma amiga desafiou ela a baixar o aplicativo, ou ela trabalha com redes sociais, é jornalista e está coletando amostras e depoimentos de pessoas de uma faixa etária ou localização geográfica? O posicionamento dessa pessoa lhe agradou? Você procura o que com esse relacionamento? Já foram postos a prova tanto a identidade real da pessoa quanto a intenção real? E se ela nem existir, rapaz? Vai cair nessa, de novo? Mais do que golpes digitais, são comuns sentimentos de que é difícil confiar em quem a gente nunca viu, mas ao mesmo tempo, somos seduzidos por essa ideia: a ideia do diferente, do contexto de vida alternativo, da opção, do útil e agradável; até você ter de lidar com a sua própria rotina. O país pode estar tomando uma grande decisão, e falta o seu posicionamento; mas você decidiu que era o caso de ficar compartilhando memes de tartaruga com a pessoa especial. E as suas amizades daqui? Como vão reagir? Você inverteu as prioridades ou elas foram invertidas, e agora você tem o poder de voltar a ter controle da própria história? São perigosos alguns debates online, sobre pensamentos ou posicionamentos que não agradam à maioria, mas devem ser feitos. Só não é o caso de perguntar pra uma saudita se ela tá a fim de mostrar os peitinhos, pelo amor de Deus, cara. E meninas, no Brasil tem macaco sim. Também tem oficina mecânica, e inclusive tem uns caras que tiveram uma ideia de colocar umas cordas e… enfim, deixa pra lá.

7. Não se interessar pelo aperfeiçoamento da linguagem

Na interação online, hoje, o que conta é espontaneidade. São muitos os que já sabem sua identidade completa ao tempo da primeira interação, por meio de aplicativos. Outros sabem como manipular programas para buscarem os contatos que querem, e o que querem deles. Mas no momento do encontro, você não pode demorar muito para responder. E aí, tem que ser na lata. Se ficar falando sobre a vida, é chato. Mas tem muita gente procurando isso aí mesmo. É só saber dosar, e ser consciente das suas escolhas, que não podem se repetir no dia seguinte caso você chegue à conclusão que foram erradas. Dois dias depois, tudo bem. No dia seguinte? Pô, cara. Acorda. Mas além das questões de uso, a linguagem mesmo deve ser precisa, e a internet é um lar para a imprecisão. São muitas coisas acontecendo, e a linguagem acompanha essa tendência. A forma com que novas terminologias e hábitos são formados à medida que as conversas vão se formando e acontecendo é meio que alucinante; mas devemos ser sóbrios. Tudo bem perguntar “como vai” ou “que horas são”. Só saiba o que dizer. “Pô, por aqui tá legal, só aconteceu uma coisa meio chata hoje”. E aí, é assim que você fala? É isso que você quer falar? É sobre isso que a outra pessoa quer falar? Em todo caso, um dos modos de se expressar isso (além do “how are you” e do “what time is it”) seria: “Well, it’s all good, just this thing that happened today that’s bugging me”. E aí você recebe um mágico: “quer falar sobre isso?” ou “wanna talk about it?” É quase uma terapia. E quem disse que não era? Como diz o meme da NASA: always has been.

8. Confiar em um curso para te preparar para a vida

Não existe fórmula mágica, apesar de eu ter acabado de falar em mágica. Abordam-se situações, exploram-se aspectos da língua em termos de gramática, de vocabulário ou mesmo de pronúncia que podem fazer uma diferença enorme na sua preparação; mas se trata de preparação, não ação. A ação quem toma é você. O resultado você pode buscar com auxílio, trazendo suas questões para teachers ou procurando por aí. Mas no mundo de hoje, com as demandas de hoje, ninguém vai te falar como viver a vida, e sabendo que muito da nossa vida se passa na internet, não faz o menor sentido dizer isso. O que podemos fazer é dar indicações, e você pode ou não segui-las. Como diria um antigo apresentador de TV, é por sua conta e risco.

Imagem: Pexels

Code switching e cultura popular: identidade de baixo para cima

Muitos debates poderiam ser feitos, e já foram, sobre a questão do acesso a formas de expressão não-nativas e as oportunidades de integrar debates globalizantes. Parece que o mundo do trabalho não é mais o mesmo. Movimentos internacionais não são cobertos apenas pela mídia que os millenials conheceram, e se gabam com motivações aparentemente juvenis pelo fato de terem visto o mundo do orelhão na rua, das fitas cassete ou do VHS. Alguns lembram das videolocadoras e dos anúncios do poderoso DVD; outros focam nas redes sociais de vanguarda, por falta de termo mais apropriado, como o Orkut e o Fotolog. Mas embora o mundo de hoje apresente dados que salientam o papel da mobilidade e portabilidade do conhecimento (uma falácia conveniente) e termos um sem-número de novos aplicativos de sistemas operacionais para smartphones, não se toca na questão das chamadas “parent companies“, donas dos direitos. Eu particularmente não me incomodo tanto quanto possa parecer: o que me causa incômodo, tanto pelo histórico que carrego, entre tantos embates comigo mesmo e com um mundo desconhecido e altamente desenvolvido, com o qual tive contatos prazerosos e traumáticos sem saber definir quais foram os casos com a precisão necessária, não são as “companies“, mas sim, mudando para o masculino, os “parents“. Explico.

Quando comecei minha pesquisa acadêmica (e juro que não me alongo), percebi um certo movimento: nichos se intensificavam em complexidade, e o senso comum era uma espécie de realidade negada. Não é uma questão de micro e macro: o estilo de vida de um jovem que passava 5 horas por dia na internet era diferente daquele (e devemos incluir a experiência feminina com devido rigor, além de trazê-la para o debate, com o cuidado de não se apropriar da fala) que se ocupava com a limpeza de um banheiro, com o trabalho que começou muito cedo, com a sua própria vida social pré-midiática, ou que fosse com um desenho animado ou videogames, além dos estudos (na época em que o livro didático ainda era uma coisa relevante). É possível argumentar longamente sobre o valor da leitura, mas muitos desistem dessa estratégia, confrontados (seja por uma percepção de impotência frente ao desconhecido; seja por não encontrarem pessoas que compartilham das mesmas ideias, inclusive na família) com o grande poderio da comunicação massificada em vídeo. É positivo, por um lado. Mas há controvérsias grandes demais para serem ignoradas, e isso deve pautar debates.

Uma série de fatores me força a usar uma grande metáfora: os formatos de vídeo podem ser incompatíveis com a cognição de diferentes faixas etárias; podem também ser uma grande bobagem. Não faço comentários a respeito da brevidade das mensagens, da apropriação e mesclagem de conteúdos de outrem para divulgar uma impressão falsa da personalidade da geração z; não é o meu mundo, apesar de eu tentar entender, com muita boa vontade, mas acabar sendo sugado por um universo onde a atenção opera em outro modo. O mundo corporativo alertaria que a falta de atenção é o problema a ser enfrentado (os americanos usam uma expressão do esporte, não muito amigável, mas até que aceitável: “tackle“); o jovem parece nos dizer, a todo momento, que não entendemos nada sobre nada. E quem disse que convém contar suas histórias? A ridicularização é uma característica fundamental do que chamam de “cancelamento”, mas parece que todo mundo associa esse fenômeno a uma espécie de revolta com o comportamento dos que vigiam, seja qual for o propósito, e nunca (em hipótese alguma) discutindo os meios. São criados termos como “stan” (stalker + fan) e tantos outros, sem que a senhora que ainda assiste o Jornal Nacional tenha a menor ideia do que se trata. Perceba: estamos muito longe disso; mas o desejo, acredito, é de fato “participar” desses movimentos. Mas isso se dá sem expectativas, e sim por meio de espectadores. Veja: não agentes, nem mesmo assimiladores; brasileiros e brasileiras são meramente cientes, o que é opcional quando é possível, de certos movimentos da cultura. E o importante de se enfatizar é que a língua é cultura. Mas aí fica complicado.

Quando se trata dos propósitos do aprendizado de língua estrangeira, não se trata da cultura estrangeira com tanta frequência. Ainda se pensa que o entretenimento padrão vai dar as respostas, enquanto a demanda é por experiências reais, não fantasiosas. Por meio das narrativas, se procura por uma espécie de “fundo de verdade”, mas qualquer um sabe encontrar um exemplo onde tanto o fundo quanto a superfície são completamente deturpados. E aí entramos em questões básicas, mas apesar da introdução insuportavelmente prolixa para os menos iniciados na leitura formal, estamos tratando dos primeiros contatos com o mundo estrangeiro, informalmente. Isso não era possível. Então concluímos que é tudo muito bonito? O final é feliz? Depende. E é aí que eu quero chegar. Quantos pensam naquelas pessoas que conhecemos em redes sociais, nos comentários que vemos, nas sugestões e na sua arquitetura, e o efeito de cada uma das interações–que se note: com pessoas, empresas, robôs e violadores de regras em proporção esquizofrênica? Seria uma história linda falar que você conheceu alguém de fora que foi muito bacana com você; mas depois que todos nós perdemos a paciência com as demandas implantadas pelas redes que se promoviam como grandes agentes da união dos povos, hoje não são só as empresas que sofrem acusações de más práticas, mas também os usuários (com muitas razões, apesar de poderes altamente desiguais). Será que uma pessoa que tem 5 mil contatos no celular sabe dizer quem são seus verdadeiros amigos? E veja só: a plataforma Instagram, por exemplo, antecipou isso, introduzindo o conceito “close friends“. Mas não é sobre nada disso. E isso é o xis da questão–um só, tá legal?

Eu assisto comentários sobre finanças na televisão a cabo. Às vezes, aparece o primeiro ministro britânico ao vivo, falando ao parlamento, e seguem-se comentários sobre as decisões políticas e as múltiplas perspectivas de lá, dos americanos e do restante das empresas interessadas em margens de lucro e oportunidades. No mundo “real”, tão exaustivo de se definir quando se nega que o acesso à informação em menos tempo de vida é um fator mais ou menos determinante, e ao mesmo tempo que se recusa em várias frontes uma discussão adequada sobre os limites do discurso (e mesmo os pesquisadores não sabem determinar quais seriam estes, confrontados com dados e intensificação de tom, prática e expectativa), se propõe que seja adotado o chamado senso comum, sendo que quem determina o que acontece ou deixa de acontecer é, no papel, o grupo de empresas de tecnologia e um grupo ainda menor de pensadores da legislação. Mas ninguém quer saber de legislação! Querem saber (leia com atenção, porque é um alerta e uma constatação) por que os jovens se comunicam da maneira que se comunicam, achando que é normal. Mas note que o desinteresse pela vida do jovem é um problema pelo qual todos passamos (quando jovens, é claro). A competição da vida escolar se transformou em outra espécie de jogo, onde não é mais o vestuário, a cor do cabelo ou a nota da prova que gera uma impressão nos colegas; é a vida digital. E a maneira que esta se constrói, se levarmos a sério o tal princípio sólido da constituição estadunidense em sua primeira emenda, é questão pessoal e inviolável. E agora? Participamos disso? Se a expressão é livre, convém questionar como ela é silenciada. Mas também devemos pensar: e se as conversas privadas tomarem um rumo de favorecimento à deterioração das relações de respeito ou de naturalização das violações à honra e dignidade, conceitos estabelecidos pelo que chamamos de direitos humanos? Num mundo que tem os americanismos como modelo, por vezes sem nunca ter ouvido o termo imperialismo, será que vamos perceber que eles se viram bem, enquanto o estrangeiro sempre é excluído? Percebemos o desrespeito institucional, velado e de debate restrito para impedir a participação inclusive intelectual na sociedade onde o centro do capitalismo é o mercado estadunidense? Ou ainda: quem se vale dos contatos diretos para aprimorar uma percepção do que podemos falar e quando a nossa voz passa a incomodar, às vezes em sentido literal? Chega-se ao ponto de comparar uma fala pausada de um pensamento bilíngue ao retardo mental, e nem pense em argumentar com o americano se a pronúncia não tiver sido rigorosamente adequada aos estudos de fonética e fonologia; você não será ouvido, e quando for, será questionado.

Voltando à questão das liberdades, a minha atuação na análise dessas mudanças do plano discursivo se deu por muitos caminhos tortuosos. As histórias pessoais não importam tanto. É a famosa expressão: “a blessing and a curse“. Para eles, não importa. Para nós, seria escandaloso. Mas a localização é muito problemática. Quando deixamos de atentar às redondezas, renunciando inclusive atenção à família (apesar de discordarmos pela necessidade de auto-afirmação, o que é válido, até certa idade), para fazer apenas uma tentativa de migrar para o mundo que fala outra língua, aparenta não ter tantos tabus, mostra claros conceitos e possibilidades de abordagem dos mais variados temas e realmente sai do padrão conhecido e martelado pela mídia local, tudo parece muito interessante. Mas esquecemos que a nossa linguagem é nossa; nossos problemas, também. A influência mútua, devidas proporções do contato de uns e a expectativa dos espectadores diversos, é um conceito a se ponderar. Às vezes, não é mútuo–nem um pouco. Outras, pode até ser, mas a facilidade de trocar de identidade pela oferta mais conveniente ou mais atrativa (o que toma formas que pedem permissão para entrar na nossa vida, mas acabam por arruinar muitos de nossos planos) é o que faz da mudança linguística um tema de saúde mental: devemos entender o comportamento de forma humanizada, e avaliar periodicamente nossos atos, palavras, rotinas e relações (inclusive questionando se elas são verdadeiras ou não). É legal participar de um mundo novo das relações e presenciar particularidades linguísticas, comportamentais e expressivas que nos fazem apaixonados pela novidade? No começo, com certeza. Mas o começo de muitos jovens hoje em dia é marcado pelo conflito, que parte de uma simples imagem de si, já atrelada a inúmeros estereótipos, alguns deles assumidos e até bem definidos; mas as experiências e o que faremos com elas, principalmente se vamos ter algum papel de guia no futuro, trazem preocupação. O bom é que ninguém liga muito pro que se escreve num texto (a não ser que ele seja compartilhado num grupo secreto, ou algo do tipo, por meio de cópias que nem legais são; mas se o usuário não toma iniciativas, quem o faz é a liderança da empresa–e isso não devemos nunca deixar de questionar, a fim de participar não somente de uma “conversinha”, mas de uma discussão pautada em análise moderada, apesar das quedas e choques, para enxergar um futuro possível onde as liberdades não sejam condenadas, embora sejam reservadas a alguns (de cima) e negadas a todo custo a outros (de baixo).

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