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Code switching e cultura popular: identidade de baixo para cima

Muitos debates poderiam ser feitos, e já foram, sobre a questão do acesso a formas de expressão não-nativas e as oportunidades de integrar debates globalizantes. Parece que o mundo do trabalho não é mais o mesmo. Movimentos internacionais não são cobertos apenas pela mídia que os millenials conheceram, e se gabam com motivações aparentemente juvenis pelo fato de terem visto o mundo do orelhão na rua, das fitas cassete ou do VHS. Alguns lembram das videolocadoras e dos anúncios do poderoso DVD; outros focam nas redes sociais de vanguarda, por falta de termo mais apropriado, como o Orkut e o Fotolog. Mas embora o mundo de hoje apresente dados que salientam o papel da mobilidade e portabilidade do conhecimento (uma falácia conveniente) e termos um sem-número de novos aplicativos de sistemas operacionais para smartphones, não se toca na questão das chamadas “parent companies“, donas dos direitos. Eu particularmente não me incomodo tanto quanto possa parecer: o que me causa incômodo, tanto pelo histórico que carrego, entre tantos embates comigo mesmo e com um mundo desconhecido e altamente desenvolvido, com o qual tive contatos prazerosos e traumáticos sem saber definir quais foram os casos com a precisão necessária, não são as “companies“, mas sim, mudando para o masculino, os “parents“. Explico.

Quando comecei minha pesquisa acadêmica (e juro que não me alongo), percebi um certo movimento: nichos se intensificavam em complexidade, e o senso comum era uma espécie de realidade negada. Não é uma questão de micro e macro: o estilo de vida de um jovem que passava 5 horas por dia na internet era diferente daquele (e devemos incluir a experiência feminina com devido rigor, além de trazê-la para o debate, com o cuidado de não se apropriar da fala) que se ocupava com a limpeza de um banheiro, com o trabalho que começou muito cedo, com a sua própria vida social pré-midiática, ou que fosse com um desenho animado ou videogames, além dos estudos (na época em que o livro didático ainda era uma coisa relevante). É possível argumentar longamente sobre o valor da leitura, mas muitos desistem dessa estratégia, confrontados (seja por uma percepção de impotência frente ao desconhecido; seja por não encontrarem pessoas que compartilham das mesmas ideias, inclusive na família) com o grande poderio da comunicação massificada em vídeo. É positivo, por um lado. Mas há controvérsias grandes demais para serem ignoradas, e isso deve pautar debates.

Uma série de fatores me força a usar uma grande metáfora: os formatos de vídeo podem ser incompatíveis com a cognição de diferentes faixas etárias; podem também ser uma grande bobagem. Não faço comentários a respeito da brevidade das mensagens, da apropriação e mesclagem de conteúdos de outrem para divulgar uma impressão falsa da personalidade da geração z; não é o meu mundo, apesar de eu tentar entender, com muita boa vontade, mas acabar sendo sugado por um universo onde a atenção opera em outro modo. O mundo corporativo alertaria que a falta de atenção é o problema a ser enfrentado (os americanos usam uma expressão do esporte, não muito amigável, mas até que aceitável: “tackle“); o jovem parece nos dizer, a todo momento, que não entendemos nada sobre nada. E quem disse que convém contar suas histórias? A ridicularização é uma característica fundamental do que chamam de “cancelamento”, mas parece que todo mundo associa esse fenômeno a uma espécie de revolta com o comportamento dos que vigiam, seja qual for o propósito, e nunca (em hipótese alguma) discutindo os meios. São criados termos como “stan” (stalker + fan) e tantos outros, sem que a senhora que ainda assiste o Jornal Nacional tenha a menor ideia do que se trata. Perceba: estamos muito longe disso; mas o desejo, acredito, é de fato “participar” desses movimentos. Mas isso se dá sem expectativas, e sim por meio de espectadores. Veja: não agentes, nem mesmo assimiladores; brasileiros e brasileiras são meramente cientes, o que é opcional quando é possível, de certos movimentos da cultura. E o importante de se enfatizar é que a língua é cultura. Mas aí fica complicado.

Quando se trata dos propósitos do aprendizado de língua estrangeira, não se trata da cultura estrangeira com tanta frequência. Ainda se pensa que o entretenimento padrão vai dar as respostas, enquanto a demanda é por experiências reais, não fantasiosas. Por meio das narrativas, se procura por uma espécie de “fundo de verdade”, mas qualquer um sabe encontrar um exemplo onde tanto o fundo quanto a superfície são completamente deturpados. E aí entramos em questões básicas, mas apesar da introdução insuportavelmente prolixa para os menos iniciados na leitura formal, estamos tratando dos primeiros contatos com o mundo estrangeiro, informalmente. Isso não era possível. Então concluímos que é tudo muito bonito? O final é feliz? Depende. E é aí que eu quero chegar. Quantos pensam naquelas pessoas que conhecemos em redes sociais, nos comentários que vemos, nas sugestões e na sua arquitetura, e o efeito de cada uma das interações–que se note: com pessoas, empresas, robôs e violadores de regras em proporção esquizofrênica? Seria uma história linda falar que você conheceu alguém de fora que foi muito bacana com você; mas depois que todos nós perdemos a paciência com as demandas implantadas pelas redes que se promoviam como grandes agentes da união dos povos, hoje não são só as empresas que sofrem acusações de más práticas, mas também os usuários (com muitas razões, apesar de poderes altamente desiguais). Será que uma pessoa que tem 5 mil contatos no celular sabe dizer quem são seus verdadeiros amigos? E veja só: a plataforma Instagram, por exemplo, antecipou isso, introduzindo o conceito “close friends“. Mas não é sobre nada disso. E isso é o xis da questão–um só, tá legal?

Eu assisto comentários sobre finanças na televisão a cabo. Às vezes, aparece o primeiro ministro britânico ao vivo, falando ao parlamento, e seguem-se comentários sobre as decisões políticas e as múltiplas perspectivas de lá, dos americanos e do restante das empresas interessadas em margens de lucro e oportunidades. No mundo “real”, tão exaustivo de se definir quando se nega que o acesso à informação em menos tempo de vida é um fator mais ou menos determinante, e ao mesmo tempo que se recusa em várias frontes uma discussão adequada sobre os limites do discurso (e mesmo os pesquisadores não sabem determinar quais seriam estes, confrontados com dados e intensificação de tom, prática e expectativa), se propõe que seja adotado o chamado senso comum, sendo que quem determina o que acontece ou deixa de acontecer é, no papel, o grupo de empresas de tecnologia e um grupo ainda menor de pensadores da legislação. Mas ninguém quer saber de legislação! Querem saber (leia com atenção, porque é um alerta e uma constatação) por que os jovens se comunicam da maneira que se comunicam, achando que é normal. Mas note que o desinteresse pela vida do jovem é um problema pelo qual todos passamos (quando jovens, é claro). A competição da vida escolar se transformou em outra espécie de jogo, onde não é mais o vestuário, a cor do cabelo ou a nota da prova que gera uma impressão nos colegas; é a vida digital. E a maneira que esta se constrói, se levarmos a sério o tal princípio sólido da constituição estadunidense em sua primeira emenda, é questão pessoal e inviolável. E agora? Participamos disso? Se a expressão é livre, convém questionar como ela é silenciada. Mas também devemos pensar: e se as conversas privadas tomarem um rumo de favorecimento à deterioração das relações de respeito ou de naturalização das violações à honra e dignidade, conceitos estabelecidos pelo que chamamos de direitos humanos? Num mundo que tem os americanismos como modelo, por vezes sem nunca ter ouvido o termo imperialismo, será que vamos perceber que eles se viram bem, enquanto o estrangeiro sempre é excluído? Percebemos o desrespeito institucional, velado e de debate restrito para impedir a participação inclusive intelectual na sociedade onde o centro do capitalismo é o mercado estadunidense? Ou ainda: quem se vale dos contatos diretos para aprimorar uma percepção do que podemos falar e quando a nossa voz passa a incomodar, às vezes em sentido literal? Chega-se ao ponto de comparar uma fala pausada de um pensamento bilíngue ao retardo mental, e nem pense em argumentar com o americano se a pronúncia não tiver sido rigorosamente adequada aos estudos de fonética e fonologia; você não será ouvido, e quando for, será questionado.

Voltando à questão das liberdades, a minha atuação na análise dessas mudanças do plano discursivo se deu por muitos caminhos tortuosos. As histórias pessoais não importam tanto. É a famosa expressão: “a blessing and a curse“. Para eles, não importa. Para nós, seria escandaloso. Mas a localização é muito problemática. Quando deixamos de atentar às redondezas, renunciando inclusive atenção à família (apesar de discordarmos pela necessidade de auto-afirmação, o que é válido, até certa idade), para fazer apenas uma tentativa de migrar para o mundo que fala outra língua, aparenta não ter tantos tabus, mostra claros conceitos e possibilidades de abordagem dos mais variados temas e realmente sai do padrão conhecido e martelado pela mídia local, tudo parece muito interessante. Mas esquecemos que a nossa linguagem é nossa; nossos problemas, também. A influência mútua, devidas proporções do contato de uns e a expectativa dos espectadores diversos, é um conceito a se ponderar. Às vezes, não é mútuo–nem um pouco. Outras, pode até ser, mas a facilidade de trocar de identidade pela oferta mais conveniente ou mais atrativa (o que toma formas que pedem permissão para entrar na nossa vida, mas acabam por arruinar muitos de nossos planos) é o que faz da mudança linguística um tema de saúde mental: devemos entender o comportamento de forma humanizada, e avaliar periodicamente nossos atos, palavras, rotinas e relações (inclusive questionando se elas são verdadeiras ou não). É legal participar de um mundo novo das relações e presenciar particularidades linguísticas, comportamentais e expressivas que nos fazem apaixonados pela novidade? No começo, com certeza. Mas o começo de muitos jovens hoje em dia é marcado pelo conflito, que parte de uma simples imagem de si, já atrelada a inúmeros estereótipos, alguns deles assumidos e até bem definidos; mas as experiências e o que faremos com elas, principalmente se vamos ter algum papel de guia no futuro, trazem preocupação. O bom é que ninguém liga muito pro que se escreve num texto (a não ser que ele seja compartilhado num grupo secreto, ou algo do tipo, por meio de cópias que nem legais são; mas se o usuário não toma iniciativas, quem o faz é a liderança da empresa–e isso não devemos nunca deixar de questionar, a fim de participar não somente de uma “conversinha”, mas de uma discussão pautada em análise moderada, apesar das quedas e choques, para enxergar um futuro possível onde as liberdades não sejam condenadas, embora sejam reservadas a alguns (de cima) e negadas a todo custo a outros (de baixo).

Imagem: Pexels

Atenção: fator colaborativo e déficit do ego

Os modelos de trabalho remoto forçaram muitos que não integravam a lista dos serviços essenciais a procurar novas formas de alcançar pessoas a fim de conseguir administrar a vida. Isso pode parecer uma questão de regulação das finanças, à primeira vista; não é. Acho que, antes de mais nada, cabe pensar no que classificaram como essencial. Barbearias? Pelo amor de Deus. Se quiser usar desta avaliação específica para fazer comentários sobre administração, fique muito à vontade, pois estamos pertinho do mês de Outubro. Mas fato é que no meio da transformação digital, que já é complexa não por ser ininteligível, mas sim por ter perspectivas diversas, não se chegou a um consenso sobre quase nenhuma questão do uso das ferramentas sociais–evito, propositalmente, incluir o termo “mídia” para tratar das pessoas. A multiplicidade de perspectivas, inimiga do coaching, da tia do zap que nunca ouviu O Céu é Muito, do Lenine (nunca perdemos uma piada, não é mesmo?) sem entrar na questão de ministérios e suas funções, parece ser um problema, e não uma solução. Os gringos, que não gostam de ser chamados de gringos (coitadinhos), têm uma expressão interessante: “it’s a feature, not a bug”. No caso, se vê muito esse tipo de frase no meio das discussões sobre cultura digital: a competitividade, num mundo capitalista, não seria diferente no social digital; é toda a graça do negócio, não causa nenhum problema. Será?

Recorro à minha pequena biblioteca. O autor era britânico, publicava isso em 1932, e só chegou aqui graças à Editora Unesp, em 2018, através da Bertrand Russell Peace Foundation. É importante falar esse tipo de coisa. Em um de seus livros, há um capítulo inteiro dedicado à ideia de competição, mas contextualizando, antes de abordar o tema da educação. Já citei esse senhor em outras oportunidades, mas olhando bem para alguns eventos recentes muito pouco inspiradores da fé na humanidade e pesquisando a nível supérfluo o que certos grupos pensam a respeito do termo “eugenia“, acho que convém transcrever o primeiro parágrafo na íntegra:

Alguns ideais dominantes do século XIX perduraram até a nossa época; outros, não. Aqueles que perduraram têm, em sua maioria, um campo de aplicação mais restrito em nossos dias do que tinham havia cem anos. Dentre eles, o ideal da competição é um bom exemplo. É um equívoco, acredito, considerar que a crença na competição se deve ao darwinismo. Na verdade, aconteceu o contrário: o darwinismo se deveu à crença na competição. O biólogo moderno, embora ainda acredite na evolução, não acredita tanto quanto Darwin que esta seja motivada pela competição. Essa mudança reflete a alteração ocorrida na estrutura econômica da sociedade. O industrialismo começou com grandes quantidades de pequenas empresas competindo entre si, a princípio com pouquíssima ajuda do Estado, que ainda era agrícola e aristocrático. Portanto, os primeiros industrialistas acreditavam na autoajuda, no laissez-faire e na competição. Da indústria, a ideia de competição disseminou-se para outras esferas. Darwin convenceu os homens de que a competição entre formas de vida foi a causa do progresso evolucionário. Os educacionistas se convenceram de que a competição na sala de aula era a melhor forma de promover a indústria entre os eruditos. A crença na livre competição foi usada por empregadores como argumento contra o sindicalismo–o que ainda ocorre nas partes mais atrasadas da América. Mas a competição entre capitalistas diminuiu de maneira gradual. A tendência é que toda uma indústria se combine nacionalmente, de forma que a competição passou a se dar sobretudo entre nações, com uma grande diminuição da competição entre as diversas empresas dentro de uma nação. Nesse interim, naturalmente, os capitalistas se empenharam–enquanto combinavam entre eles–a atrapalhar, tanto quanto possível, as combinações de seus funcionários. Seu lema tem sido: ‘Unidos, venceremos; divididos, eles cairão’. Desse modo, a livre competição foi preservada como um grande ideal em todas as áreas da vida humana, excetuando-se as atividades dos magnatas industriais. Quanto a esses, a competição é nacional e, portanto, toma a forma do estímulo ao patriotismo.

Bertrand Russell, “Competição na educação”. In: Educação e ordem social (2018). Editora Unesp. (p.143)

Aí, amizade, cabe ao leitor ou à leitora tirar conclusões, e pesquisar sobre a expressão francesa. Machado de Assis era erudito, assim como Dostoiévski, dentre outros exemplos. Não é a questão do acesso (que se argumente); mas sim o panorama, a visão. Sem acesso a outras perspectivas, não tem panorama ou visão–mas talvez (teoria razoável) essa seja uma ideia impugnada. A visão é natural de cada um (não falo do ponto de vista clínico, mas poderia). O panorama, talvez, seria algo que Noam Chomsky se interessaria em discutir, sendo o linguista responsável pela disseminação de termos como “inerente” e “inato” para falar de todas as qualidades com as quais as pessoas já nascem. Na verdade, não sou leitor de Chomsky; apenas conheço suas fundamentações através de comentadores, uma entrevista ou outra (dentre elas, a clássica com Foucault, que deixo aqui). Mas não, a responsabilidade pela disseminação de uma teoria e a interpretação da mesma em forma de texto, além das outras formas que tomam (o comentário oral sobre o texto, por exemplo), não é necessariamente do autor. Só não precisamos falar da Section 230, mas cabe uma pesquisa. O que Chomsky diz é que nascemos com a capacidade de cognição. Só isso. E muito mais, é claro. A teoria da “gramática universal” é complexa, mas o quanto estamos experimentando no campo da Linguística Aplicada, mesmo que informalmente, para argumentar que o jovem é muito bem informado?

O que todo pai e toda mãe quer, além de ver seu filho ou filha numa boa faculdade, com a vida encaminhada, esse tipo de coisa, é que não se metam em problemas. E aqui entra o fator de interesse: o problema é que as pessoas não percebem o nível de tensão da vida da criança de hoje. Não vamos brincar de soletrar, mas seria importante. Vamos fazer o que, discutir como foram construídas as nações? Acho que cabe mencionar que um passatempo dos adultos muito popular é a variedade dos jogos de palavras (Coquetel manda lembranças), como destacou matéria da NBC, e foram inventados muitos formatos. Mas o que o adolescente quer é uma outra questão. A criança? Num país em que investimentos em cultura são barrados, fica difícil prever. Inclusive, não é só aqui: existem os que argumentem que não deveria existir atuação conjunta do Estado e das entidades culturais. Mas será que a atenção dos pais e a atenção dos filhos deveria se voltar às mesmas temáticas, fontes, filosofias, estilos de vida, estéticas, linguagens, e que não esqueçamos, pessoas? Não seria egoísta não lhes permitir a diferença–talvez até autoritário? Talvez, mas é inegável que a necessidade e urgência de atenção para si já passou de um estágio epidêmico. O bom é que existe a semiótica, a morfologia, o professor…