Quer dizer que a sua música tem um tema censurado?

A paranoia é um estado diagnosticado de funcionamento do cérebro humano em que tudo leva às mesmas conclusões negativas, embora artificiais e projetadas, mas que se nutre de uma suspeita forte ou de um evento traumático. Os leitores de Orwell, já na década de 1940, sabiam que o Reino Unido vivia com a paranoia do potencial de guerra nuclear. Não é à toa que grandes nomes do heavy metal abordaram temas parecidos, desde o Black Sabbath em 1970 com Paranoid até o Iron Maiden em 2000 ou o Megadeth, em 2016, com Dystopia: “o que você não sabe, não pode te machucar, diz a lenda”. Mas as histórias hoje são mais complexas. O clipe de Afraid to Shoot Strangers, música do Fear of the Dark, último de Bruce Dickinson em 1993, chegou com Blaze Bailey lá pela época do X Factor, mas o Megadeth já falava de conflitos militares retratando claramente do que se tratava em Holy Wars The Punishment Due, em com mais propriedade que o Iron Maiden, que a quase dançante Run to the Hills; o Black Sabbath colocava no mesmo álbum Hand of Doom e Paranoid, e sabemos que o culto a Ozzy Osbourne envolveu muito uso de drogas. Não cabe aqui falar quem se antecipou, até porque Phantom of the Opera é uma música super atual e deveria ser mais pesada, se quiserem entender que sugere que uma mulher vai ser estuprada; mas não é, porque não se fazia música assim naquela época. Mustaine já dizia: “next thing I know, they’ll take my thoughts away”. Isso foi muito antes do “what’s on your mind?” do Facebook.

Hoje em dia, em 2022, os artistas anunciam suas músicas em miniaturas na tela de um smartphone, não em um estádio com amplificadores por todos os lados. Aliás, é lamentável que o metaleiro veja o Metallica como um símbolo do estilo de vida, e só preste atenção a Master of Puppets porque gosta de um refrão que fala “master” de forma sexualizada. Não é uma música que critica nada, é uma música que exalta o relacionamento tóxico e ainda sugere feminicídio. “Prove o meu sabor e você verá / que só quer chupar mais e o fará”, algo assim. Muito longe da Cardi B, mas nem tanto. Agora a Cardi B merece ser citada no original, porque a verdadeira obra de arte, que custou a reputação inteira de uma pessoa e de todas que se identificaram com ela, se trata com respeito:

“I wanna gag, I wanna choke
I want you to touch that lil’ dangly thing that swing in the back of my throat
My head game is fire, punani Dasani
It’s goin’ in dry and it’s comin’ out soggy
I ride on that thing like the cops is behind me
I spit on his mic and now he tryna sign me”

Ouça a original. Mas depois, veja o vice presidente dos Estados Unidos falando sobre uma nova norma no país, a “gag rule” (termo da época de escravidão). Lembra-se que “gag” como verbo tem o sentido de “interromper abruptamente”, mas vocês podem entender que não é por acaso que se usa o termo. No final de agosto de 2019, o Planned Parenthood postou sobre isso, mas o que se deu foi a decisão de revisar o julgamento do embate Roe v. Wade, e por fim proibir o aborto e qualquer menção à prática, o que foi aplicado pela empresa Meta, apesar de inúmeros protestos.

Veja, não é novidade que sexo é censurado. Mas isso foi uma medida tomada pelo chefe de Estado mais poderoso do mundo, enquanto a indústria musical lucrava com músicas que exaltavam a sexualidade e só poderiam ser ouvidas nos Estados Unidos, porque em outros países, isso gera problemas. Não precisamos lembrar do Irã, ou imaginar um iraniano praticando sexo oral com barba cabelo e bigode por fazer, enquanto o gay russo provavelmente seria raspadinho; mas o blog sabe que a mera menção ao tema é juramento de morte, e não tem medo das repercussões.

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