Nota de esclarecimento: a quem incomoda o projeto Fluência Participativa?

Muitos sabem que me formei na Universidade de São Paulo, mas poucos têm a referência da Escola Estadual Olga Cury, onde estudei da quarta à oitava série. Antes disso, tive uma infância onde enfrentei a separação dos meus pais, aos 9 anos de idade; a perda do meu avô Paulo para um câncer e muitos conflitos familiares. Meu pai tentava dar rumo à vida dele, mas minha mãe não se dava bem com a família Escobar. Nessa época, 1999, ele tinha 37 anos. Ou seja: se eu tivesse seguido o caminho dele, teria sido pai aos 27 anos de idade, considerando que tenho um irmão um ano e meio mais velho. Mas não é exatamente assim não: eu tenho uma meia-irmã mais velha. Se não me falha a memória, ele foi pai aos 18. Essa foi a idade em que ingressei no trabalho como professor de inglês, em 2010, num programa de monitoria pela FFLCH/USP. Perdi contato com a minha mãe, a ponto de passar vinte anos sem saber se ela tinha trocado de nome, e com isso, não conseguir dar prosseguimento à minha pesquisa acadêmica, por falhas nos dados enviados e verificados junto à Receita Federal (o CNPq é coisa séria, e quem corta verbas é o governo Bolsonaro). Mas quando segui, com 3 projetos consecutivos de mestrado pelo Departamento de Letras Modernas, uma levou à minha desistência — e em seguida uma crise de saúde mental e falta de moradia, num período onde passei fome e não tinha comunicação com ninguém, inclusive dormindo na rua e pedindo por dinheiro e cigarro no bairro pobre do Santo Antônio, no Guarujá. Tinha assistido o movimento estudantil fazer barulho, mas as causas eram verba para reforma do prédio de Letras e horários do ônibus circular no campus, nada a respeito do CRUSP, onde morava, e preços de passagens para estudantes de outras cidades. Pagava, na época, cerca de 20 a 25 reais pela passagem de ida mais a de volta, e estava junto com a minha namorada, Olívia. Eram 100 reais só de ônibus intermunicipal, toda semana. Enquanto se fala do perdão da dívida estudantil nos Estados Unidos (já mostrei dados de como uma universidade americana chega a custar mais de 300 mil reais), a bolsa que recebi tinha o valor de 250 reais ao mês. Como não tinha dinheiro para as passagens, ficava em São Paulo. A grande estratégia (e o grande crime) foi trazer marmitas para o restaurante universitário (que não pagávamos, pois tínhamos auxílio alimentação), pedir mais para quem estava de servente, exatamente como uma pessoa de rua, e depois usar o adicional como refeição no fim de semana — mas às vezes se recusavam a dar o adicional, e tínhamos que comer o pouco que éramos forçados a dividir para sobreviver no final de semana. Assim, economizávamos 100 reais nos fins de semana. Perdíamos as xerox de materiais essenciais, e ficávamos só com a audição das aulas. Não tínhamos os textos, que todos os alunos acompanhavam, numa sala com mais de 100; mas anotávamos tudo e conseguimos passar de ano, com notas abaixo da média, mas suficientes.

Já em 2007, minha namorada começou a trabalhar numa escola da Barra Funda. Eu fiz um processo para professor, onde trabalhava uma monitora do programa da FFLCH, mas fui recusado. Ela continuou, e depois foi para a monitoria. O trabalho dela nos garantiu alguma estabilidade, com a ajuda do meu pai. Não tínhamos um relacionamento muito bom. Quando eu tinha 14 anos de idade, saí de casa e fui morar com ela. Briguei com a família inteira, e nunca mais os vi. Só voltava, de vez em quando, para a ocasião do aniversário dos meus avós ou o nascimento das minhas primas, Mariana e Marcela. Meu pai ganhou o benefício de aposentadoria por invalidez, mas na verdade não ganhou foi nada. Passou uma década inteira com dores permanentes nas hérnias que o impediam de ter uma boa noite de sono ou se movimentar com qualquer facilidade. Acordava sempre com dores que o faziam lutar para chegar até o banheiro, e após muito anos narrou, humilhado, que não conseguia se limpar porque não alcançava e doía demais tentar. E eu passei por situações não equivalentes, mas parecidas: faltava papel higiênico no dormitório, peguei piolho, não tinha roupas de frio (e chegava a fazer 6 graus Celsius em São Paulo), e ainda, em 2011, quando já deveríamos ter alguma liberdade, a Olívia teve um aborto. Na verdade, decidimos por fazê-lo, mas foi um acidente: a camisinha estourou, e ainda nos precavemos com a pílula do dia seguinte, mas ela não funcionou. Ela comprou comprimidos na clandestinidade, ingeriu um e colocou outro dentro dela. Continuamos trabalhando. Também já narrei isso, mas o departamento comercial queria nos demitir, por alguma razão (e depois soube que a franqueadora era associada ao movimento pró-vida, e contratou um missionário americano para dar aulas junto com a minha namorada). Um dia, estávamos em Santos, e ela acordou com dor. Eu estava ansioso e muito confuso (tínhamos brigado sério pela primeira vez, talvez, em 7 anos de relacionamento, por causa de uma menina que eu conheci na internet, a Suzan). Estava pouco consciente. Ouvi ela chorar no banheiro de casa, que ainda era a nossa casa — e hoje sou forçado a ver todos os dias o estado em que ela se encontra, o lugar onde cresci. Quando entrei, vi ela segurando um feto em suas mãos. Ela chorava, tremia, e dizia: “ele tem olhinhos”. Pegamos uma toalha, eu peguei uma pá, e o enterramos no quintal. Foi ainda mais pesado: ela teve sequelas psicológicas muito graves, incluindo espasmos involuntários e camadas da placenta sendo evacuados durante o que acho que foi um mês inteiro. Um dia, isso aconteceu enquanto ela dava uma apresentação sobre literatura, numa universidade em Osasco. Éramos muito capazes, mas poucos sabiam o que tivemos de aguentar. Isso fora os conflitos de ensino fundamental e médio, que incluem tentativas de agressão em bando, além do bullying constante comigo, pelo fato de ter cabelos compridos mas também pelas performances musicais, que incluíam maquiagem e roupas exóticas, com os covers de música japonesa (que aliás, nunca ninguém deu valor), e ela por conta do que nem chegava a ser obesidade, só umas gordurinhas, que eu sempre gostei e digo isso até hoje. Nos amamos demais. E é tortuoso lembrar disso tudo, e pensar no quanto avanço e volto no tempo, pulando capítulos inteiros, inclusive o do suicídio do vocalista da minha banda, o Fábio da Plaise, e depois, a morte da Karen, uma amiga com quem me relacionei em 2016, depois da minha desgraça familiar e profissional, que sofreu um acidente de moto e depois não quis contato comigo, mesmo após eu insistir.

Tive um período até longo de atividade profissional intensa. Ninguém fala que tinham festas com drogas e todo mundo queria sexo, mas não é pra falar mesmo. Ninguém quer saber que a minha coordenadora passou mal no mesmo colchão onde eu dormia no CRUSP, e eu limpei a sujeira, bêbado mas ainda obedecendo às ordens. Gostava dela. Pessoa muito competente, mas infelizmente foi uma das influências para que eu me apegasse ao tabagismo. Como sofri com bronquite e pneumonia dupla na infância, precisando de inalação diária com medicações que me faziam tremer aos 9 anos de idade, e sangramentos nasais constantes, que precisaram ser remediados com suplementos de cálcio, minha saúde não era boa já naquela época, mas pelo menos me alimentava bem. E é aí que eu quero chegar. A minha vida em São Paulo, a partir do momento em que comecei a ganhar bem (o que, pra nós, era pouco mais de um salário mínimo), comecei a comer fora e frequentar lugares, com o perdão do lulismo, que o pobre não tinha condições de frequentar. Mas não viajei de avião, e bem que queria. Quando fui demitido, desisti do mestrado, mas ganhei a rescisão. A mãe do meu melhor amigo na época, um rapaz que se tornou o marido da Olívia (que apesar das mágoas, não é qualquer um, e o nome dele é Daniel), pediu um dinheiro emprestado por algum motivo, e eu simplesmente transferi cerca de 5 mil reais. Ela devolveu. Em seguida, comprei cerveja cara, maconha de 50 reais, besteiras, mas também quis limpar a casa inteira, cuidar dos pets e renovas todo o vestuário e os eletrônicos. Comprei livros, me preparando para os estudos. Comprei acessórios e instrumentos musicais. Mas me esqueci que poderia ter viajado para ver a pessoa que decidiu o fim do meu relacionamento, a Julianna.

Hoje, a história é muito diferente. Desde então, vivo com a minha família, apesar do hiato de 2015, quando confiei em uma pessoa, a Paula, que não me levava muito a sério, e o desastre de 2014, quando comecei tratamento psiquiátrico. Já em 2016, conheci a Emma, com quem falo até hoje, mas as expectativas não são as mesmas. Durante nosso relacionamento, procurei muitas pessoas que poderiam me fazer companhia, e num dado momento, não foi o suficiente estar com ela. Não tínhamos assunto, e ela provavelmente só sabia que eu procurava meninas, todas elas mais novas, além de assistir pornografia demais para alguém que se pretendia um acadêmico de uma universidade pública. Apesar de tudo, montei meu projeto, todos os conteúdos de blogs e postagens, e construí minha presença. Mas minhas dores foram ignoradas, inclusive pela última pessoa com quem me relacionei presencialmente, a Iasmin. E foi um bom relacionamento, mas veio a morte do ex-namorado dela para nos separar, e algumas experiências pouco unificadoras.

Resumir minha história é complicado. Perdi meu avô em 2011. Perdi minha avó Zilma em 2018, se não me engano, e minha avó Áurea em 2021. Com isso, minha família ficou sem auxílio financeiro (e escrevo isso enquanto passa um helicóptero), e o projeto Fluência Participativa é o que sustentaria a mim, meu pai e meu irmão. Há histórias que não conto, de violência doméstica, mau-atendimento hospitalar, ameaças, roubo, golpes cibernéticos volumosos, e muito dor no coração. Mas acreditava que poderia oferecer algo de significativo para a educação brasileira, e talvez para o mundo. Hoje, minha arte é renegada, censurada, caçoada e denunciada, ao mesmo tempo. Meus blogs levam a medidas corporativas, e sou banido de plataformas. Ninguém do passado se habilita a comentar os acontecimentos.

O meu único desejo é que, numa economia da interação, as pessoas sejam capazes de conhecer melhor o outro pela conversa, e não pela análise de dados. Essa é a missão do projeto: não conectar o mundo para roubar informações sobre usuários e vendê-las para anunciantes, mas sim proporcionar condições de estabelecer laços de afeto entre pessoas de todo o mundo. Uma pessoa que sofreu o que eu sofri poderia simplesmente pedir dinheiro. O que eu peço, no entanto, é que não tratem os outros como me tratam. E é isso que incomoda tanto.

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