Quantidade ou qualidade? A falsa polarização da conversa nas mídias sociais

Como professor de inglês, eu sempre vou cair no modismo: as portas se abrem ao descobrir as possibilidades de interação com o mundo, seu salário vai ser no mínimo 30% maior, você vai viajar para lugares que sempre sonhou conhecer e ter a experiência da troca cultural na pele. Mas espere um pouquinho: na pele? Na pele é quando a gente toca, e se tratando de interação com pessoas, esperamos não falar de sexo — até porque isso não pode ser publicado sem documentação assinada (e é claro, confesso que é uma piada com a situação atual deste blog). Fato é que os jovens estão escolhendo suas próprias mídias, e já entenderam que o Twitter é lugar para adultos. Não estamos discutindo teses acadêmicas no Facebook, nem receitas de bolo no TikTok (na falta de Trakinas); mas queremos, em todos os ambientes que escolhemos habitar, conversas com pessoas que se importam com a gente. Será que encontramos isso?

Essa é uma proposta de debate. Já mencionei em vídeos os aplicativos Wink e Hoop; mas as minhas críticas ao Snapchat, acreditem ou não, fizeram a plataforma me banir do aplicativo permanentemente (se foi alguma outra entidade, sinceramente não estou em condições de comentar, pois não se faz análise sem dados). São ideias simples que têm como motivação principal o contato entre pessoas que, ao contrário dos aplicativos de namoro, são do mundo inteiro. Uma questão que vai além, talvez, da percepção da maioria de pessoas que usa os serviços (que já passam por dificuldades) é a construção do algoritmo. É muito evitado se falar no Omegle ou mesmo na versão adulta (anterior a todas as mídias sociais e inclusive aos principais sites de pornografia) da conversa por webcam, mas não é disso que se trata. São pessoas que trocam mensagens, dizem de onde falam, e daí não sabem mais conversar sobre nada. Os contatos ficam ali, no seu aplicativo (seja o Instagram, seja o Snapchat, ou mesmo o que alguns vêm sugerido, como Telegram, Line ou até mesmo RingSmiley, uma versão asiática dentre os muitos aplicativos de conversas entre estranhos). Desde o Olive, uma espécie de freemium para vídeo, até o Boo (este com o apoio da Psychology Today), existem muitas tentativas de injetar comunicação com estranhos estrangeiros nas mídias sociais recentes. Nenhuma delas parece ter pensado o suficiente na seriedade do projeto, simplesmente oferecendo uma distração.

Mesmo quando ficamos em nosso próprio círculo de amizades, informações chegam de todos os cantos. Se você não produz nada, você consome, com certeza. Até uma pessoa que lê a Bíblia todo dia e escolhe ouvir as palavras da Paróquia ao invés do seu YouTuber favorito vai passar por anúncios e memes, mesmo porque a publicidade já se apropriou dessa linguagem. O que devemos observar é que também as Paróquias estão nas mídias sociais, e não importa se tiverem perfil: de onde vêm as mensagens animadas com palavras do Senhor, com um coelho sorridente lhe desejando um bom dia? Não queremos coelho, queremos outra coisa (e aqui deve se alongar a vogal para entendimento do implícito). Tudo bem, talvez nem sempre. Mas o embate está no hábito e na experiência: ao se procurar um relacionamento, abandona-se a vida de muitos para muitos, e se dedica àquela pessoa ao máximo do tempo disponível. Se souberem dosar e ter conversas úteis e agradáveis, com respeito e entendimento da história de cada um, ótimo. Se não, vão se trocar acusações de que um conheceu “quem é de verdade” o outro, e isso não leva a nada. A única coisa sobre a qual devemos estar alerta é que também nossas conversas, não importa a qualidade ou a quantidade, estão sendo avaliadas por terceiros, apesar de todo o discurso empresarial e parte do legal (alguns de nós leem os termos de uso) dizerem que não. Quem define isso é outra instância, e em muitos casos, se houver algo de errado, há de se lutar para provar que a acusação pode ter sido falsa, e quem sofreu injúria foi a parte acusada. Mas quando isso toma proporção massificada, temos basicamente uma crise de saúde pública, além de segurança, que hoje é determinada pelas grandes empresas de tecnologia, para o bem ou para o mau.

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