Perspectivas: o que esperar do ensino médio

Em 2017, surgiu a Base Nacional Comum Curricular, um documento que buscava alinhar expectativas, demandas e projetos para o desenvolvimento de jovens em período escolar. É fácil de encontrar (todos conhecem o Google), mas os objetivos parecem difíceis de se alcançar, além de a preparação de professores ser completamente autônoma — e, diga-se de passagem, não-remunerada; isso quando são contratados com carteira assinada. Nesse cenário, e com todos os outros que as conexões da vida digital oferece (sem nunca esquecer das críticas), como aplicar uma atualização de temas abordados a fim de preparar jovens para o mundo, não somente para o mercado de trabalho? Propostas como a BNCC lançam previsões sobre a capacidade de pensar a sociedade criticamente e com responsabilidade; na prática, desigualdades socioeconômicas, raciais e de gênero ditam a regra das interações e da vida de jovens a também jovens adultos, com matrículas recentes em faculdades, públicas ou privadas. Quais seriam alguns dos pontos em que jovens deveriam se sair bem, mas não é o que encontramos quando analisamos com critério sua desenvoltura, e não apenas o desenvolvimento baseado em pontuações e notas de prova, em contato com o mundo remoto ou nas proximidades?

1) Tolerância

Jovens aderiram desde sempre à cultura da zoeira. Chame de “trollagem” se quiser, ou aplique termos como assédio e difamação se tiver pais muito preocupados com a sua visibilidade. Nada é muito sério, e isso pode ser bom ou ruim. Ninguém tem terapia na escola. As redes de suporte não funcionam, e muita gente busca contato fora do ambiente escolar para conseguir suportar as tarefas obrigatórias. Negar essa possibilidade deveria resultar numa denúncia frente a organizações protetoras de Direitos Humanos (e se adolescentes tiverem um contato de fora?) ou mesmo reforçando o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente, pobremente implantado e nunca lido pela maioria de profissionais da Educação). Falta interpretação. O direito à brincadeira rende muitas conclusões, com mentes pensantes liderando a discussão, e não um bando de católicos punitivos e hipócritas (com reservas à boa moral cristã, que prega a ajuda a quem tem necessidades, mas não especifica quais), inclusive nas políticas de uso das plataformas digitais. Há brincadeiras de mau-gosto; há criminalidade organizada com influência na vida de jovens, e há também professores e professoras falando por aí que bandido bom é bandido morto. Na mesma medida, a escola católica não pensa jamais em integrar sedução e flerte nos letramentos, o que é, talvez não literalmente, mais certamente a mais crítica (e relevante, salvo as críticas que mal precisam ser feitas) falha em análise de dados. Adultos que não conhecem e nem se interessam pela realidade de filhos e filhas são menos tolerantes com os vizinhos, mas pode ser que os motivos sejam outros, e não a famosa necessidade de prover para a família. Sabemos discutir tolerância? Além disso, jovens aprendem o suficiente sobre o tema com experiências na internet? Creio que não, mas particularmente, não acho que professores no TikTok vão mudar alguma coisa.

2) Consciência

O som de uma guitarra amplificada pode ser de fato um convite à macumba do vizinho evangélico, que lhe considera adorador de Satanás. Mas não é só religião que dita as regras (só estamos presenciando uma potencialização desses debates, para a tristeza dos bons educadores e pensadores, e sem ter que flexibilizar os pronomes). Uma experiência com o aplicativo Happn seria legal, assim como o Snapchat, se todo mundo tivesse um plano em seu nome. Como você vai conseguir esse plano? Apresentando um comprovante de residência. E como você consegue um comprovante de residência? Apresentando holerites de seus últimos pagamentos com vínculo empregatício. Água, luz ou telefone. Acontece que muitos se utilizam da telefonia para fins, digamos, escusos. O comprovante pode vir porque você pagou com uma fintech. Não significa que a operadora e também a fintech não vão lhe causar danos, mas o comprovante vai chegar à sua casa (sim, um pedaço de papel). Como diria Michael Scott em The Office: “real business is made on paper”, mas aí inventaram o Pix. Acontece que o PayPal já existe desde 1998. Não é legal olhar ao seu redor? Não precisamos ficar no digital. Quando uma mulher grita por socorro e um homem fala alto na rua, sabemos que há um problema. Que não seja demérito fazer uma denúncia, muito menos ter que pagar pela denúncia que fez, quando a vítima nem está mais presente no cotidiano.

3) Mindset

Temos que ser alguém na vida. Escutamos isso desde muito cedo. Mas os exemplos viraram todos YouTubers. As meninas gostam do Twitch. O som da moda fala de sexo. As discussões sobre a tecnologia revolucionária que mudará o mundo força jovens a virarem investidores (vejam o caso do Robinhood). Mas pior do que o jovem fã do Elon Musk é o jovem hacker que ganha dinheiro ameaçando pessoas a acabar com reputações em troca de dinheiro. Parece que há um apelo contra a nudez, de um lado, e de outro um ganho que nunca se satisfaz e sempre acaba em punição ou segregação, guardadas as proporções. Não se ensina jovens a identificar problemas e atuar para solucioná-los, de fato. Podem fazer um fio no Twitter, se já acordaram para o monopólio do conglomerado Meta e tantos outros, mas não se somam as vozes, e se compete por atenção quando se deveriam unir esforços para direcionar debates e lutas para melhorias da sociedade. Os movimentos estudantis não são bobagem. São essas as mentes pensantes que farão do mundo um lugar melhor, e se preferirem ir numa manifestação ao invés de tomar uma cerveja importada, que bom. Já se não tomarem cerveja em ocasião nenhuma porque os pais não deixam, sinceramente, coitadinhos.

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