Já ouviu falar que músico é puta? Então. É pior.

O aplicativo do Spotify, segundo o Google Play, conta com mais de 1 bilhão de downloads. Vamos lembrar que existe o iOS, e claro, muitos não pagam pela assinatura. Mas os que pagam mantém a empresa — que não é nenhuma fundação para o bem da humanidade, mas está muito interessada na grana, que é utilizada para prover um serviço de qualidade que vem de outras pessoas: os músicos e musicistas. Existem registros de que o fluxo de caixa da empresa entre 2017 e 2021 foi de aproximadamente $884M, ou mais de R$4.6 bilhões. Será que isso corresponde a toda a indústria musical?

Existem muitos acordos e processos por trás desse fluxo de caixa. Veja: falo como um artista que tem uma conta no SoundCloud há mais de uma década e nunca fez um centavo na plataforma; minhas visualizações para uma gravação semi-profissional chegaram a pouco mais de 200 plays, mas não foi muito por minha conta — meu colega colocou o link nas highlighted stories, e daí alguma coisa aconteceu. Mas um clique custa caro. O Bandcamp se diz uma plataforma para o músico independente. Tenho um catálogo com quase 20 músicas, e fiz o total de 4 dólares (mas 30% fica com eles). Já o Spotify apenas permite que o seu trabalho seja postado uma vez cumpridas uma série de exigências para o mercado da música, envolvendo registro, tipos de arquivo e especificações, dados e tudo mais. Isso faz com que os músicos procurem distribuidoras, e algumas fazem o serviço gratuitamente, caso da ONErpm. Uma vez lançada a música, você deveria ter a possibilidade de fazer um perfil de artista, correto? Não é o que aconteceu comigo, no caso tanto do Spotify, quanto do Deezer e também do YouTube. Nessa última situação, tive que pedir permissão da empresa para corrigir o problema, sendo que a própria plataforma da distribuidora não permitia o upload e foi o suporte, sem contar que era um representante do Brasil e não internacional, que fez o processo. No fim, sou conhecido como “Vários Artistas”, por uma mera questão de educação.

E quanto o artista (ou os vários artistas, se quiserem seguir este belo manual de merda) ganharia quando alguém clica para ouvir sua música? O que dizem por aí é que cada stream equivale a $0.003, ou 1 centavo. Sim, um centavo, e mais uma moeda de um centavo suja de cocô, falsificada e partida no meio. Agora deixa eu contar a parte engraçada pra vocês. Um belo dia, conheci o tio da minha namorada, que todo mundo falava que tocava violão como ninguém. Era todo um mito, porque estávamos todos começando na música, perto dos 16 anos. Não me lembro quando foi que o conheci, senhor João Nelson. Eu mostrei a ele uma música que gostava muito na época, “No pain for the dead”, do Angra (banda nacional), que tinha uma introdução legal no violão. E por aí acho que dá pra prever que o ano era 2005. Mas ele tocou uma outra música, ou improvisou baseado no que ouviu, e eu me lembro da firmeza dos dedos do cara. Da sonoridade limpa e nítida de todas as notas, da tal da pegada. Ele disse, pouco depois, como se contasse um segredo ou desabafasse sobre a vida inteira: “músico é puta”. E todo mundo deu risada. Muito bem. Diz a lenda que o cara tocou com o Roberto Carlos. Sabe quanto que ganha a modelo de webcam, por token (o que não equivale ao stream, mas ao pagamento mínimo para quem se exibe)? $0.11 ou 58 centavos. Traduzindo, as putas ganham 58 vezes mais do que os músicos. Evito aqui fazer comentários sobre o sucesso de qualquer artista que seja. Tire suas próprias conclusões.

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