As mudanças na minha vida são visíveis, mas e o meu futuro?

Em um vídeo recente no YouTube, lanço uma frase que por si só é uma aberração discursiva: “partfluency is not a party”. Me referia, é claro, ao projeto pedagógico de ensino de inglês para a maior participação brasileira no contexto internacional. Mas há pelo menos duas interpretações crassas, que podem não ter ficado claras, mas mesmo sendo identificadas, publiquei: a primeira, “party” (como partido ou uma festa), a segunda, a ideia de “parte” (de um todo). O que a semiótica poderia fazer com isso, não? É um vídeo de cerca de 10 minutos, e falo sobre os diversos temas que gostaria de abordar. Hoje, penso diferente. Poderia, sim, abordar o que bem entendesse; mas o fato de que não assistiram ao vídeo nem passaram perto de pensar em fazer uma doação me faz querer desistir. E é essa a tônica da última década. Desistir. Alguns pensam que, na minha vida, desisti de uma carreira acadêmica, de uma banda, de uma relacionamento, de uma posição como coordenador de uma grande franquia educacional. Mas é muito mais do que isso. Cada uma dessas coisas não faz mais sentido, no contexto de hoje. Em resumo, desistiram de mim, apesar de eu continuar aqui, e produzindo consideravelmente.

Mas antes de 2013, com as famosas jornadas de junho, que o colega José Uchôa, que começou a pesquisa acadêmica no mesmo lugar que eu (o Departamento de Letras Modernas da USP), escreveu livro a respeito, algo mudou na minha maneira de pensar. E parece um grande clichê. É aquela coisa de se decepcionar com o PT que a geração mais nova ouve e acha intragável (F1 pode ser, isso aí é coisa de fascista); meu pai, que votou em Jair Bolsonaro, assim como o irmão com quem tenho conflitos graves, conta que meu avô João fez campanha para Jânio Quadros. E eu penso: será que eu compreendo a dimensão da política, ou melhor, as dimensões em que a política coloca a nossa vida, que deveria ser tão simples?

Eu me lembro de certas coisas a respeito da vida em São Paulo. A ida para a rodoviária. Virar na Conselheiro Nébias com muito sono, e saber que a João Pessoa daria mais alguns minutinhos de descanso, até virar na praça e descer. Era o caso de ficar alerta, pois naquele horário, muitos se levantavam para ser os primeiros a comprar passagem, enquanto alguns esperavam mais 20 minutos até o próximo ônibus, isso tudo às 6 da manhã. Metrô Consolação, que antes da Linha Amarela, fazia você pegar a baldeação com a Ana Rosa para seguir até a Consolação, e dali um Butantã USP ou Cidade Universitária, que descia a Avenida Rebouças, passava o shopping Eldorado, a Faria Lima, e entrava na Vital Brasil, muitas vezes demorando muito para entrar no campus, devido ao trânsito. Largar as malas e ir pra aula. No trabalho, pra mim, era andar a raia, atravessar a ponte e ir da estação da CPTM ao lado do campus até a estação Vila Olímpia. Isso antes das subidas à Teodoro Sampaio, onde trabalhei por um tempo, no Metrô Clínicas. Idas ao Pão de Açúcar, ao Cine Belas Artes. Depois, a Funchal e a Gomes de Carvalho. Tinha um boteco que apelidamos de quatro e cinquenta, que era o preço do litro da cerveja (veja o papel da inflação). Às vezes fazíamos algo de diferente, mas logo ficamos pela Paulista, o Metrô Brigadeiro, idas ao Bar Asterix e ao Café Creme para um wrap vegetariano, ou ao Gopala, não que fosse muito frequente. Eram de fato comuns visitas à Livraria Cultura. Raramente, à Vila Madalena. Me lembro de algumas ocasiões. Uma dessas lembranças me remete à Rua Augusta, onde desci com uma pessoa a quem tenho muito apreço (ela de salto, eu bêbado, de braços dados com ela, um gesto muitíssimo afetivo) a ladeira até encontrarmos um bar com cerveja barata e sem povoado. Foi difícil, mudamos umas 3 ou 4 vezes, mas conseguimos. A fama era outra. Sem contar que, naquele dia, a cerveja espumou demais.

Quando voltei pra Santos, era a Bernardino de Campos. Eram lugares que eu desconhecia, ainda mais com a japonesa e o americano ali no meio. Pouco antes, ainda havia música. Tocamos em alguns lugares, e um belo dia, enquanto esperava alguém me ligar pelo Skype, chegou o novo casal, e eu não vestia nada. Soube ali que a minha vida iria mudar. Saímos, e falei a uma amiga: “acho que faz uma semana que eu não estou sóbrio”. Ela só respondeu um “nossa senhora”, e enquanto eu atravessava a rua, sem ver que um carro se aproximava, ela me segurou. Saí com ela algumas vezes. Foi esclarecedor. Assim como conversas com minha prima Pamela. O que se seguiu foi confuso. Depois de 2 empregos onde as amizades pareciam gostar de jogar algum tipo de jogo onde você não sabe as regras, mas supostamente tudo é uma conversa que você precisa prestar atenção mas nunca responder, e aí o fato de ficar calado é usado contra você, fiquei de antissocial, e daí pra baixo. Rolou muita maconha, o que me fez parar num tratamento psiquiátrico. E isso começou em 2014, e continua até hoje, com todo o histórico da COVID mais duas avós que perderam a sanidade, mobilidade e a vida para o Alzheimer. Da casa da minha mãe, perto da Fumio Miyazi, até o hostel na Castro Alves, e dali até o Santo Antônio, de volta para a Presidente Wilson lá em São Vicente, a pé, debaixo de chuva, achei que valeria a pena. Adivinhem? Não valeu. E não vale até hoje, mas ainda procuro contato.

Um dia fui visitar um amigo de um camarada, vizinho que me dava o que comer durante os fins de semana. Um comentário: “é isso mesmo, pussy cat dolls?” E ali estava uma sementinha: subtweet é o novo normal. Anos depois gritariam na rua referências cruzadas. No caso, era o kik da minha namorada online, que começava com “pcd” exatamente por causa do grupo. Ou seja, era isso mesmo. Falavam sobre mim. Mas como eu respondia? Não respondia. Minha resposta foi, por muito tempo, o Twitter. Mas quem tem paciência pra verificar quando ou como isso foi posto de lado, enterrado, eliminado? Ainda viriam incursões à Oswaldo Cruz, ao Centro, e depois andaria a Pedro Lessa, o Gonzaga. Perderia o caminho. Receberia ameaças, iria ao hospital, tomaria uma série de medicações, enquanto alguém posaria num aplicativo de namoro com uma foto de gin tônica, dizendo que “é o destino” se você gostar também. O cúmulo foi ler sobre deep fake e metaverso, após saber que o Facebook se usava de uma rede canadense para obter informações sobre usuários entre famílias, mas não conseguir provar nada disso. Uma rede aberta para hackers, mas ninguém admitindo nada. Uma rede pronta para o ataque. Hoje, a propósito, a pessoa que mais se usa da rede é um spam ucraniano; antes era uma amiga minha, russa, e mais um monte de gente. Mas com ela, tive bastante contato. E ela me lembrava alguém… uma cantora famosa. O tom de voz dela me lembrava a minha primeira namorada virtual. E foram 3, mas aí veio o Snapchat. Ou melhor, veio o Faceflow. Depois, não veio mais nada.

Eu não sei se é o caso de apontar dedos. Tudo bem, eu fiz uma conta alternativa no Skype. Depois, usei o kik como spam, ou melhor, como um aplicativo de namoro, que na verdade era só para sexo. Mas isso veio muito depois… ainda tinha conversas legais no kik. Quando finalmente acessei o Snapchat pra procurar sexo, os adolescentes já faziam isso desde o início. Desde quando o Instagram foi inventado, nem Gifyo nem Pornhub, nem Skype nem Messenger valiam de mais nada. Por que? Não sabemos. Hoje temos o TikTok. E querem que a gente não preste atenção à essa narrativa. De fato, é difícil para o estrangeiro compreender o que custa andar do Bar do Chinês até a Biquinha, mas se falamos de tecnologia, os detalhes vão ser esquecidos com argumentos de que a versão tal do Android foi lançada dia tal; isso foi antes do Windows 10 (ou 11). A Apple não tinha entrado na briga com a Epic Games. Ninguém nunca tinha ouvido falar na Huawei. Eu insisto: e na minha ex da internet? O fato de a menina ser tão natualmente linda que a Billie Eilish ter sido lançada por causa dela e da semelhança com ela, mas a CNN ter desviado a atenção de todo mundo com uma tal de Donna Brazile, é surreal. Ron deSantis não é um cara legal, mas assista ele falando e você perde audiência: confie em nós.

A verdadeira história está aí: eu sei muito bem que a minha vida mudou a partir do momento em que me deixei influenciar (constantemente, diariamente) pela mídia televisiva dos Estados Unidos. Não era a mídia tradicional. A mídia tradicional era a NBC, passando o SNL. Ou a ABC, passando How I Met Your Mother. Ambos foram legais de assistir até um ponto na minha vida, em que precisava de algo um pouco mais maduro. Mas a falta de maturidade política para compreender a rapidez das decisões e o poder da audiência foi um fator decisivo na minha vida, e não tem mais volta. É claro que tem: não assistirei mais os canais estrangeiros, pois temos que poupar dinheiro para as despesas básicas. Mas veja… meu convite está pendente; uma outra pessoa acaba de fazer uma conta, e no dia seguinte estou suspenso. Começo a achar que os meus direitos online estão sendo atacados diretamente, e não é de hoje. E é por isso que publico, mesmo que em fragmentos: minha história não pode ser mudada. Quem se incomodar, que se pronuncie, e encare de frente. Só duvido andar do Bar do Chinês até a Biquinha, debaixo de chuva.

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