Qual é a “meta”? O dilema ético de um gigante da tecnologia

Quando eu tinha 17 anos de idade, tive a oportunidade de ingressar na Universidade de São Paulo, no curso de Letras. O Facebook não existia em sua forma atual, e estou aqui para discutir a própria, tentando dar uma perspectiva futura que não assuste as crianças nem cause frustração nos formadores de opinião. Na verdade, não existia nem o Android. A rede brasileira ainda se utilizava de links de download tanto para software quanto para entretenimento, mas eram muito vagos os conceitos de boas práticas e bom conteúdo. O MySpace perdeu usuários, um desenvolvimento que não acompanhei; o Orkut e o MSN Messenger eram os principais domínios de uso da rede no Brasil; mas alguém percebeu algo nos detalhes: jovens corriam para o Fotolog, divulgando trechos de suas vidas numa espécie de rede social de compartilhamento de imagens, que se transformou numa febre tamanha que deve, creio eu, ter inspirado a criação do Instagram. Na minha história pessoal, no entanto existem alguns pontos importantes de se destacar, e procuro abordá-los a seguir.

O Orkut procurou inovar: eram muitas as possibilidades de interação, desde os comentários em grupos até os scraps e testimonials, incluindo também jogos inseridos na plataforma, perfil e álbuns customizados. Não sei se vale a pena investigar toda a semiótica da coisa. Talvez tenha ficado claro que, uma vez ativo em alguma das comunidades, como eram chamados os grupos, as pessoas sabiam quem você era – e a plataforma do turco de mesmo nome respondeu com uma ferramenta para saber quem visitou seu perfil. Não se falava em VPN, as virtual private networks, atalhos de conexão que não deixam rastro da identidade do usuário. Não se falava em deep web, e até hoje o assunto é evitado. Na discussão mais rasa, um resumo de que se tratava de drogas e pornografia; nas mais avançadas, mecanismos industriais, militares, governamentais – e daí surgia o WikiLeaks, que abria a porta para a documentação das ações do governo. O idealizador está preso até hoje, tendo passado anos numa Embaixada do Equador, até ser enviado a Londres. Edward Snowden, a pessoa que revelou os mecanismos de monitoramento e vigilância da população mundial, fugiu do país para não sofrer represálias, e acabou na Rússia, onde pouca informação está disponível ao público geral. E um pouco antes disso, surge um jovem estudante de Harvard que pensou que a principal motivação das pessoas em fazer novas conexões era o rosto e a atratividade da pessoa: assim fez o Facebook, que estava, na sua criação, muito mais próximo do Tinder do que dos perfis empresariais, muito menos do universo do marketing, que hoje é maioria quase absoluta dos ganhos da empresa. Uma empresa de marketing abusivo, ponto que ainda se tenta provar – tarde demais. Uma empresa que coleta dados sem que a população saiba ao menos do que se fala quando se menciona a palavra, e lucra com cliques, tempo de visualização, análise de perfil sócio-econômico e o chamado cruzamento de informações: se temos amigos em comum, porque não adicionar? Se tantas pessoas que eu conheço curtem essa página, porque não curtir também?

Como sabemos, o que aconteceu não foi exatamente o reforço aos relacionamentos verdadeiros, na criação de nichos onde as pessoas pudessem se expressar livremente, sempre carregadas de positividade: o discurso de ódio não deu lugar ao reforço cognitivo de que tudo era legal, tudo ia bem, todos eram boas pessoas. Não porque nos frustramos com amizades, mas também por isso. O Instagram, onde o foco era a imagem, foi pago um bilhão em dólar para vender seu produto – mas também toda a estrutura do aplicativo, que inclui a linguagem de programação. Assim, o dinheiro comprou talvez uma das ideias mais consistentes de um jovem brasileiro. Não que não existissem outras formas de se comunicar através da imagem: para os fotógrafos, o Flickr e tantos outros já eram usados no dia-a-dia; para o jovem, depois do Fotolog, a popularidade de alguns sites culminou. Entre os fóruns, destacam-se o Reddit e o 4chan, mas não é todo mundo que conhece eles, nem soube da venda deste último em 2015. O dono foi trabalhar para o Google Maps. Entre as criações que lançam questão sobre como se dava esse desenvolvimento das ferramentas digitais está o Snapchat. Aplicativos de mensagens se popularizaram. Não havia mais o MSN, nem o AIM, da AOL, espécie de UOL dos Estados Unidos, e nem o Kik, canadense, menos ainda o Telegram. O WhatsApp se tornaria a maior ferramenta de comunicação do mundo, mas a empresa responsável teria ainda dois outros produtos populares, mesmo que na mesma categoria: a ferramenta das mensagens diretas na própria plataforma do Instagram e o Messenger, que era sugerido numa espécie de venda casada. Inclusive, houve a judicialização do comportamento de monopólio da empresa, que não resultou em nada. Não se fala do Skype, se fala do Zoom. Mas essa ferramenta é muito nova, e apesar disso, em pouquíssimo tempo os concorrentes criaram alternativas, tanto no compartilhamento de tela como na capacidade de gravar as chamadas, e assim se formaram o Google Meet (já existia o Hangouts, e mal se lembra do Plus) e o Microsoft Teams.

As alternativas são pouco debatidas. E aqui, volto a uma questão para poder falar de algo que é pessoal, mas não deveria ser se não houvesse tabu, como vou tentar expor.  Antes do Instagram, existia um site chamado Gifyo, onde não apenas fotos, mas imagens móveis (gifs) eram compartilhadas, com perfil de usuário e liberdade para postar bastante coisa – acredite. O site foi tirado do ar. Não pelos motivos que poderiam imaginar: o Tumblr já experimentava com conteúdo sexualmente explícito, com a supervisão de uma funcionária prodígio do Google, e assim eram alguns dos conteúdos do site. Isso mudou quando o Tumblr decidiu banir a categoria, e com isso perder boa parte de seus usuários. O Gifyo, ao contrário do Tumblr, não existe mais. O próprio Skype foi substituído por outras plataformas de conversa em vídeo, mas não necessariamente focadas no trabalho: desde as relativamente populares, como Whereby e Tinychat, dentre outras similares, ou mesmo o YouNow, uma tentativa de atrair público jovem para o contexto da transmissão ao vivo, depois de muitas falhas com sites do perfil do Omegle e Chatroulette (ambos ainda ativos), domínios pouco conhecidos (e com moderação falha, mas que podem revelar muito numa análise qualitativa) como o Faceflow, e um grave choque de cultura, quando se olha para o conteúdo adulto, desde o Live Jasmin, um dos domínios mais antigos nesse nicho, até o Chaturbate, que hoje faz conteúdo para o YouTube com o fim de humanizar o trabalho das pessoas que estão, hipoteticamente, mais confortáveis com a exposição de seus corpos – e segue o exemplo um dos 10 sites mais acessados do mundo, o Pornhub.

Somente o último dado poderia render muita discussão: como assim um site de pornografia é um dos 10 mais acessados do mundo? Não estamos todos envolvidos na luta para a redução das emissões de carbono, a defesa dos direitos da mulher, a responsabilidade financeira e moral das figuras políticas, o tratamento justo das questões raciais, a inovação industrial, a educação com acesso a todos, a informação relevante, uma qualidade de vida melhor sem problemas de saúde mental, ansiedade, depressão, e sem reforço de padrões de violência e despudor, onde o consenso é a matriz de todas as discussões? Não é tão simples. Aí, entram questões de privacidade. E voltamos ao início da discussão, mas com um adendo: queremos saber o que é notícia ou queremos entretenimento? Alguns apontariam a diferença entre Facebook e Twitter, mas o primeiro mudou de nome. Nossas conversas são importantes. Dois conceitos de dissipam (além do monopólio): responsabilidade e privacidade. Talvez tenham percebido, com estudo aprofundado (eu sugiro: com números, devido à quantidade de usuários), que defender responsabilidade e mudar de ideia para falar que o futuro é privado se provou uma inconsistência, incoerência, contradição. Mas é esse o ponto principal: o ser humano abarca contradições, inconsistências, incoerências. Posso passar o dia inteiro divulgando matérias de um veículo midiático com posicionamento que tende a um dos lados da visão política rotulada de certa maneira que vai além do que posso descrever, mas não tenho as mesmas discussões com os familiares que moram comigo. Contradição. Posso exercer minha liberdade de expressão interagindo com pessoas que não conheço pessoalmente, mas que residem em outro país, em outro contexto, e a sensação de falar o que penso e ser escutado é incrível, até que perceba que a experiência da pessoa com quem converso é completamente diferente da minha, e há fatores que nunca serão discutidos. Inconsistência. Posso falar com as mesmas pessoas, defender as mesmas ideias, mas em certo momento do dia ou da semana, procuro uma válvula de escape, mesmo que as demandas do trabalho ou da vida social, quando não o conjunto das duas e todas as sutilezas que configuram os relacionamentos, induzam a um comportamento específico, algo que edifique, e não desvie o foco de atenção do crescimento de um grupo profissional, uma equipe dedicada a maximizar os resultados com uma meta em mente, os quais, naquele momento, não são minha preocupação central, e devo responder às minhas motivações mais profundas, às minhas necessidades básicas, aos meus sentimentos, por mais banais que sejam, por mais passageiros, e abandonar essa identidade, esse aspecto sério, essa forma de me apresentar, e tentar uma alternativa, mesmo que não goste do resultado – e continuo tentando, até que tenha sucesso, numa espécie de meta secundária. Incoerência.

As possibilidades de comunicação e a meta da empresa em transformação hoje geram muito mais críticas do que podemos assimilar. Na verdade, seria possível afirmar que se trata de um slogan, e não uma meta: alguém discute como as pessoas se conectam de fato sem o toque, sem o olho no olho, sem pisar nos mesmos lugares e compartilhar um espaço, sem dormirem juntos (se for o caso), sem conhecerem amigos e família, sem de fato praticarem aquilo que gostariam de fazer, ou dizem pensar a respeito? Mais inconsistência, incoerência e contradição. Nada disso realmente acontece: se quero ir a Amsterdam, preciso de dinheiro. Preciso de um passaporte, retirado e aprovado na Polícia Federal. Esse fator em isolamento pode ser particularmente interessante de se estudar, devido à promessa da empresa em conectar de fato. Mas não estão sozinhos: o Snapchat, por exemplo, além da possibilidade de rastrear pessoas pela ferramenta de GPS, o que gerou desenvolvimentos no próprio Facebook, fora os stories (em termos de formato e consumo de conteúdo), mas também de outros aplicativos, como o Happn, anuncia que a plataforma é para amigos verdadeiros. Quais sejam? As sugestões (do algoritmo, aquela palavra que ninguém sabe definir, mas que talvez possa ser resumida como uma série de padrões identificados por máquinas para melhorar a experiência do usuário com base na atividade detectada e termos relacionados) frequentemente são dispersas: robôs de links de spam, geralmente com conteúdo sugestivo e explícito, com a pressuposição de que são instalados programas invisíveis para monitorar ainda mais suas atividades, ou ainda amigos em comum, o que vai contra o propósito de se adicionar uma pessoa desconhecida, ou ainda a evolução do processo, com aplicativos que pedem acesso às suas informações e jogam com o conceito de solidão e conforto emocional, tornando a tentativa de conhecer pessoas novas uma espécie de desafio da vida, mas com um certo aspecto de entretenimento. O consenso diria que eu não vou adicionar alguém do sexo oposto e a pessoa mais próxima dela, ao mesmo tempo, se procuro um romance online; mas nem é esse o problema. São centenas de novas mensagens recebidas pelo jovem diariamente, e a necessidade se torna um problema para a psicologia, não mais para os pais ou responsáveis – que dirá os professores. Sabemos dos benefícios de se conhecer pessoas novas, num ambiente de positividade, segurança, respeito; o processo pode ser interessante, pode gerar uma espécie de adrenalina necessária em várias fases da vida, e a ideia do que é permitido (além da mera possibilidade que, há uma década, não existia) se estende para além das fronteiras dos países, dos costumes e da cultura de onde se vive, tudo isso contribuindo para uma experiência interessante para qualquer um que deseje conhecer o mundo, e todos querem. Até que se esbarra em conceitos como o autoritarismo. Queremos que não exista esse contexto, que se fale livremente e que se tenha interações cada vez melhores – embora algumas vezes as possibilidades sejam tantas que se perca de vista a percepção de si, da realidade concreta e presente, ou mesmo do significado das coisas, inclusive da existência de uma empresa que detém poder sobre as interações, apesar de terem sido escritas leis que regulam o processo e tornam privadas de fato as conversas e o conteúdo que se compartilha, propriedades da pessoa, de acordo com a Lei Geral de Proteção de Dados – mas há contratos a serem assinados, e neles, revogamos nossos direitos.

De forma geral, os problemas que se apresentam podem ser tratados como um mero caso de desvio das normas e condutas do mundo digital, mas o termo é específico para cada plataforma, cada país, cada comunidade. Ou, ao menos, deveria ser. A ideia de que existem ameaças a ser evitadas ou mesmo neutralizadas pode ser uma questão da segurança da criança e do adolescente, mas também uma questão de segurança nacional: se uma postagem de grande repercussão vai contra as normas e costumes de um país inteiro, a empresa deve proceder de que maneira? E como saberemos dos passos de cada um dos maus atores, se não existir monitoramento? O desejo em se manter informado, quase um vício criado na multiplicidade de plataformas de fácil acesso, evolui para um desejo em expor a verdade, como se esta fosse um conceito absoluto – mas que, de uma maneira ou de outra, deve ganhar visibilidade e ter repercussão. Será possível que um grupo autônomo possa regular as boas práticas? E quais são elas? Onde se encaixa a questão da liberdade de expressão, quando uma empresa anuncia liberdade e pratica a supressão do discurso com base em critérios oblíquos? A meta não é preservar os relacionamentos, mas sim gerar novos dados, que possam ser usados para desenvolvimento de ferramentas de publicidade com maior efeito, e isso inclusive está em pauta correlacionada ao conceito de democracia. E a privacidade? O que se enfatiza é a exposição, a publicação frequente como boa prática (chamada de presença digital), o número de seguidores e amizades como métrica de alcance, e a normalização do termo personal branding, ou marca pessoal (na verdade, você no rótulo: sua identidade como produto). A procura por maneiras de sistematizar uma rotina de uso de uma plataforma sozinha já é ardilosa, um pouco mais se tratando de uma plataforma que quer ser todas ao mesmo tempo; o trabalho, longe de ser remunerado, mas que gera lucro para as empresas, na visualização, criação ou consumo de conteúdo, de diversas categorias, e ainda a proibição de esta ou aquela em determinada plataforma, assim como os mecanismos pessoais que permitem driblar as regras e se permitir o conteúdo que não é permitido no mainstream, sem esquecer de voltar ao convívio de familiares, colegas de trabalho e amigos de infância, por mais que se queira escapar da realidade de usar das ferramentas digitais para possuir, nunca assumindo, necessariamente, outra identidade; esse trabalho se torna difícil de definir. Dá trabalho usar mídias sociais? Dá trabalho usar a internet? E daí, sem mais nem menos, surge todo tipo de discussão que se pretende evitar, todas com caráter marcadamente pessoal, e que serão interpretadas como ataques; o mais grave, porém, é a renúncia das plataformas em chamar estes eventos de ataques, falhando em proteger pessoas porque, veja bem, a meta é vender.

Será que devemos informar a situação dos nossos relacionamentos amorosos, numa época em que esta já foi descrita como frágil por filósofos da contemporaneidade, do amor líquido e da facilidade da renúncia do outro? Como fica a questão do ideal e do prático? Como ficam, afinal, os relacionamentos, e como classificá-los? Quais são as experiências que temos até então? Seria mais fácil ou convincente, se aceitarmos a proposta de promover a nós mesmos, contar nossas histórias ou esperar que alguém compreenda, fora da web, numa conversa cara-a-cara? E será possível encontrar esses momentos e oportunidades, principalmente num período em que foi imposto um protocolo social em que todos deveriam ficar trancados em casa, temendo o contato físico, como se as plataformas digitais quisessem nos dizer – e dizendo, efetivamente – o que deveríamos fazer em todos os níveis, até mesmo no sexo? Essa questão esbarra, por mais que seja difícil aceitar, em questões legais sobre o uso da imagem. Nossas travas, nossa personalidade, nossos compromissos e relações futuras serão todas passíveis de análise retrospectiva, e antes que se vocifere pela falta de consenso, já existem documentos prontos. A resposta já veio: quem refuta os termos mal usa a plataforma; mas isso muda de figura quanto mencionamos a maior delas, o Google. Nossos e-mails estão lá, registrados com toda a nossa atividade; a Microsoft detém os relatórios e estatísticas de uso, nada detalhado, acreditamos, mas de qualquer maneira impossíveis de desassociar de nós mesmos. Seguimos usando as mesmas plataformas, pois para ter acesso ao Windows, é recomendado sincronizar nosso e-mail. Entendemos a disputa, mesmo que de maneira distante. Chrome ou Edge? Os dados respondem. Esquerda ou direita? Os dados também respondem. Prosseguir ou não com uma conversa? Nós deveríamos responder, mas muitos já bloquearam o perfil. E partiram para a próxima interação, com o sentimento vago e ilusório de que eventualmente algo vai fazer sentido, e será justificado, benéfico e prazeroso – a ponto de nos esquecermos da nossa capacidade crítica inata.

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Texto de apoio pedagógico. Diversas fontes.

Imagem: Pexels

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