O celular vibrou: era aquela notificação gostosinha

A relação humana com as máquinas já foi explorada por muitos, assim como muitos foram explorados por ela. Não estou aqui para falar de Gutenberg, até porque tive de corrigir o nome do inventor alemão após a pesquisa Google. Jornais, revistas, TV. Tudo isso a gente tá cansado de pensar a respeito. Aliás, talvez a mídia tradicional esteja. Nós, aqui no Brasil, celebramos Fernanda Montenegro como a atriz da Academia Brasileira de Letras, assumindo (sem ninguém notar) que o valor da escrita e da fala já foi integrado naturalmente ao valor da imagem. O vídeo é a maior fonte de engajamento da web. E estamos aqui assistindo as crises existenciais dos que se recusam a produzir conteúdo seguindo a cartilha (vulgo, pdf institucional): “deixe seu like”.

Como professor de inglês, não posso perder a oportunidade (mas como queria) de fazer uma problematização. Existe algo que se chama “estrangeirismo”. Ou, no caso específico do inglês, “anglicismo”. São muitos os casos no ambiente de trabalho (acho que todos usariam senha ao invés de password, mas no caso “lockdown”, é mais complicado), como ilustra uma matéria de 2018 do Correio Brasiliense; mas eu insisto numa tradução literal, só pra salientar o ridículo mesmo. Vamos trabalhar com hipóteses.

1) Deixe seu gostar.

Quase poético. Deixe seu gostar, agarre seu odiar, ouça Rage Against The Machine. Será? Talvez deixe de gostar das coisas que você gosta, para gostar de outras. Ou melhor: deixe seu gostar para trás, declare seu amor para o produtor desse vídeo xoxo, capenga, manco e inconsistente (alguém, lembra do meme?) pois, assim, lucraremos, visto que estamos no programa de monetização dessa plataforma que você não faz a menor ideia de como funciona, mas age conforme o que foi pedido, pois existe algo chamado “call to action”. Na verdade, não precisamos trabalhar com a hipótese literal. A tradução já foi incorporada, como exploro a seguir.

2) Dá aquela curtida.

Curtida quem dá é queijo. Se fosse assim, o Zema seria o ministro de Ciências e Tecnologia, não o astronauta. Aí o responsável pela administração das redes, pra onde vai o micro-dinheiro e tudo mais, seria o dito cujo, do Partido Novo. E faria todo sentido: a expressão é bem nova. Mas é? Quando as pessoas começaram a falar isso? Especificamente para as redes sociais? Imagine alguém perguntando: “tu curte rock?” A interação seria de um mendigo com um perdido na noite. Sem preconceitos, aliás bem longe disso (não preciso provar que Dória não é fã de Reginaldo Rossi, aquele cara que romantizou o ato de dormir da praça, enquanto o governador demonizou-a). Eu já falei com muito mendigo. Inclusive, já escrevi músicas sobre o ato de mendigar, contextualizando toda a parada. Só voltando um pouquinho e aproveitando o uso de outra expressão talvez não muito popular nos dias correntes: “tu curte essa parada de YouTube?” E aí? Como ficamos, queridos, leitores/queridas leitoras?

3) Não esquece de se inscrever e ativar o sininho pra receber as notificações.

Tudo bem. Mas “subscribe” na verdade significa “aceitar”. Não sabia? “I will never subscribe to that kind of ideology”, diria alguém muito revoltado com o ambiente corporativo na empresa fictícia mais abusiva do mundo. Traduzindo para os perdidos: “Eu nunca vou aceitar esse tipo de pensamento”. E o pensamento é o seguinte: toda vez que eu curtir (ave semiótica, cheia de graça, bendita simbologia que nos dai hoje) eu estarei, talvez, investindo no sucesso daquele tipo de conteúdo. Estarei indicando que aquilo me agrada. Quero mais (vai trabalhar, Jaime, seu vagabundo). E aí a máquina fica girando pra sempre, até alguém procurar por bundas demais no Instagram e eventualmente, por ser idiota, clicar num link óbvio de spam.

4) Não estou fazendo spam, tá okay? Só estou pedindo a sua colaboração!

Colaborar com o quê? Não existe nem um diferenciador: “I like this content”, “I like you, content producer”, “I like your channel”. Não precisa traduzir, né? Mas veja como as coisas se confundem. E aí chegamos no ponto da identidade. Imagine se realmente levássemos ao pé da letra. “Mãe, ganhei 300 likes já!” A confusão na cabeça da menina. 300 pessoas gostam dela. Na minha época, ninguém gostava muito não, só meus pais, sabe? Meus avós. Cozinhavam pra mim, lavavam minha roupa, deixavam eu comprar Trakinas às vezes. Mas enfim, se eu falar de Trakinas aqui, já vem os cara falar que a Mondelez tem trabalho escravo (li algo sobre isso recentemente, mas confesso que não procurei a fundo). E outra coisa: “os cara” vale mais a pena discutir do que o termo “like”. Mas a coisa do spam é bem complicada. Vocês sabem que a pessoa quando monetiza tem que assinar uma série de documentos e que começa a trabalhar em nome das empresas que querem fazer suas propagandas, certo? Desculpem se não abordei isso em aula… mas é um tipo de spam.

O conceito de spam (e o que isso tem a ver com notificações)

Segundo o dicionário Merriam-Webster, spam corresponde a “toda mensagem não-solicitada, geralmente comercial (como e-mails, mensagens de texto ou SMS, bem como postagens na internet) enviada para um grande número de receptores ou postada em um grande número de ambientes ou lugares”. No original: “unsolicited, usually commercial messages (such as emails, text messages, or Internet postings) sent to a large number of recipients or posted in a large number of places“. Mas veja só, que curioso. Quando eu me inscrevo num canal, geralmente é porque a plataforma sugeriu um conteúdo (não-solicitado, mas isso tem a ver com os termos de uso). A pessoa criadora de conteúdo pediu para os outros se inscreverem (geralmente, antes mesmo de passar a mensagem). Avalie se isso é um tipo de spam. Ao final do vídeo, e na descrição, com certeza estarão muitos links que nada têm a ver com o assunto abordado. O número de pessoas é grande, mas chamamos isso de público. As propagandas estão no meio disso (são propagandas, e não “spam”). Aliás, são “oportunidades”, e não inconveniências, muito menos violação, sujeitas a processo criminal, da privacidade, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (que tardou, mas chegou).

Não quero ser notificado de que o Washington Post tem conteúdo exclusivo para assinantes. Uso meu e-mail para conversar via Google Chat, o antigo Hangouts (ou melhor, usava). Não me interessa o que o Five Thirty Eight tem a dizer. Já li bastante coisa do Brain Pickings. Não, senhor Sorkin, não me interessa saber o lucro de uma empresa americana de investimentos nesse período. Caro guru da vida Dean Graziosi, já vi o seu vídeo. Aliás, perdi uma hora inteira lhe assistindo, e acho que usar o meu nome no email é bem estranho. Calma, Coursera. Eu só queria um certificadozinho, porque agora as escolas pedem. Não tenho interesse em aprender com professores de Harvard. Pelo amor de Deus, figura política que não vou nomear, já lhe sigo em todas as redes sociais. E nunca fui mencionado! Tudo bem, InfoJobs, mas não quero trabalhar no Carrefour. Ok, Facebook, eu consigo ver as notificações quando dou login, não precisa mandar uma merda dum e-mail. E puta que me pariu, cara, meu nome não é Bruna. Parem de me ligar.

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No momento, ajuda financeira seria muitíssimo bem-vinda. Interessados em aulas, procurem a seção de contato no site.

Um abraço.

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