Ensino remoto no Brasil: reflexões e percursos

Minha primeira experiência dando aulas de inglês foi em 2008, no meu segundo ano da faculdade de Letras, num programa de monitoria da Universidade de São Paulo, que coloco com orgulho no meu currículo. Acontece que, no mundo de hoje, pode-se pensar que é fácil conseguir informações sobre uma pessoa numa pesquisa no Google, mas não estão disponíveis todas as minhas contribuições para a Educação em 13 anos de profissão, com vídeos salvos em um canal que serviria de portfólio para futuros empregadores, daria algum direcionamento para os que estivessem iniciando na prática da docência (talvez o termo melhor seja prática pedagógica, menos acadêmico), e motivaria alguns, por último, a nutrir convicções sobre o que é certo ou errado na sala de aula — até porque estamos escrevendo em softwares digitais, não mais em lousas, e certamente abandonamos o giz.

Mas será? O Comitê Gestor da Internet apontava em pesquisa de 2019 que 58% dos alunos em áreas urbanas se utilizam da internet para aprender um novo idioma, enquanto 16% o fazem para participar de cursos. Isolando o ensino de inglês como uma área em que há muita expectativa de retorno mas a realidade se traduz em abandono (é só ver dados de evasão em escolas particulares e supor, por experiência, que o setor público não tem estrutura), toma-se um estudo de caso. Falei do meu currículo por um motivo: aprender um novo idioma abre caminhos para a descoberta, a troca cultural, as amizades com pessoas de fora; mas também faz com que seu trabalho possa ser reconhecido internacionalmente. E não falo de premiações: simplesmente aplico a palavra reconhecimento para além das fronteiras nacionais. É certo que reconhecemos o trabalho de artistas estrangeiros, mas será que temos a condição de mostrar os estudos, se não as iniciativas do poder público, para melhorar a vida do cidadão e lhe garantir qualidade de vida? Talvez dependa do que se elenca nesse item: considero o entretenimento uma experiência ou uma distração? Vejo o outro como parceiro ou como diferente, desconectado, que não vai entender a nossa cultura? E do que se precisa, no momento? Não é possível deduzir se os 16% são cursos nacionais, ou mesmo se são realmente cursos; mas é compreensível que se estude menos do que desejaria uma família ou um Estado que escolhe mostrar alguns fatos e esconder outros.

A cultura da internet é multifacetada. Fala-se muito em tempo de tela, foco de atenção ou mesmo saúde mental e acolhimento; diversidade, interatividade, e também de seus opostos. Mas não se analisam históricos de navegador como se fossem escolares, a menos que alguém tenha proposto, como foi feito na USP em meados de 2012, algo nos moldes das AACCs (atividades acadêmicas curriculares complementares). Recentemente, houve o caso britânico de seleção por algoritmo para os candidatos a vagas na faculdade. É claro, ou diga-se que foi sugerido, nesse caso, que o motivo era o enfrentamento de uma pandemia e as medidas cabíveis para dar prosseguimento ao ensino superior. Mas o que pode ser decidido no futuro? Como se analisam currículos onde a juventude, qual seja o sexo, dará início às jornadas de trabalho que, conforme apontam as tendências sobre o futuro mercado, podem se tornar desde remotas por completo até formatos híbridos, com auxílio tecnológico? E o que pode se falar sobre as condições desse trabalho, os relacionamentos, a supervisão, o diálogo, as capacidades desenvolvidas e a demanda de modo geral ou específico para cada setor?

Ensinar inglês é ensinar a língua dos negócios, diz uma mentora (mais uma profissão em alta). Não por acaso, menciono o que apontam os estudos sobre a penetração das tecnologias no ensino: a transformação digital gerou debates sobre uma nova indústria, onde a automatização de processos e tarefas se torna parte integrada das soluções do comércio, serviços e produção; ainda, o que se fala sobre isso na mídia tem patrocinadores interessados em divulgar suas propostas. Mas e o lado humano? Será que não reconhecemos que, além da interoperatividade dos mercados, existem pessoas que interagem e se deslocam, quando não fisicamente, ideologicamente, para abraçar ou enfrentar diferenças que devem ser assimiladas para o bom convívio entre as culturas? Como exemplo, podemos olhar para o que aconteceu no cenário de pandemia com a população asiática, atacada, ou mesmo mencionar as competições esportivas e suas pautas como motor e modelo no que diz respeito à diversidade e reações de parte dos consumidores de entretenimento e seus integrantes.

O que devemos entender, como brasileiros que almejam a participação ativa no cenário internacional, cuja validação se dá a partir de relacionamentos pessoais e profissionais, é que o papel da educação está mudando, com uma ampliação das áreas que devem ser postas em foco. Não é possível falar de interação hoje sem mencionar a internet, seja num exemplo típico de conversas entre jovens ou nos rumores e nas políticas que se elaboram para abordar o conteúdo adulto, entre intersecções perigosas. Nem todos gostariam de ganhar dinheiro numa plataforma erótica, e sabemos os motivos, além de termos alguma consciência que o estilo de vida de quem se dedica a um trabalho desse tipo afeta os relacionamentos e a rotina, como tenta ilustrar uma série em vídeo sobre modelos de webcam.

Como explicar que o bom uso da internet depende do seu estado de espírito, e justificar que existem expectativas de espectros diferentes em relação às suas contribuições? Ainda vivemos em casas e apartamentos, se não outras formas de moradia, onde o essencial é a comunicação e o cuidado. Temos tarefas, que podem ser poucas e divididas entre pessoas, mas talvez falar com alguém de fora não seja parte delas, apesar de parecer que sim. Quando se volta ao mundo estrangeiro com a impressão de que há protagonismo na sua interação, toma-se por certo uma questão com a qual ainda não sabemos lidar: existem formas de verificar o que fazemos, e estas podem ser parte da tecnologia que foi desenvolvida. O que resta — não que seja pouco, mas perde-se o foco por medo ou ansiedade geradas nos conflitos sociais — é saber expressar suas ideias e sentimentos de modo a cultivar bons relacionamentos, inclusive com as plataformas, as empresas e as famílias, além do que chamamos de contatos: temos oportunidades, e é certo que não se esquece de uma boa conversa online. Esse é o lado positivo.

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