Vamos taguiar pessoas

A minha prima de segundo grau (gata demais pra eu passar o insta) tem um negócio na bio dela que diz: “vamos elogiar pessoas”. É isso. Pode parar de ler. Mas tipo, sério. Não sei quem vc elogiou recentemente. Agora que já me acostumei a fazer blog, vai nas coxa, vai com a barriga ou então sei lá, vai de Uber. Você lerá neste artigo científico (só que não):

— sobre a importância de ser legal com os amigos;

— sobre a importância de ser legal com as amigas;

— sobre as estratégicas retóricas do Partido dos Trabalhadores em pronunciamentos na TV;

— sobre coisas que talvez vc ache meio bosta de ver;

— sobre pessoas legais.

Eu conheci muita gente na internet. Mas eu acho que é o caso de falar que é diferente quando vc tá solteiro — adicione a visão feminina depois no seu próprio blog e jogue meu texto na lata do lixo, se pá com umas catarrada. Porque é isso: o universo masculino, sinceramente, eu queria muito dizer que foda-se, mas acontece que eu tenho um pinto. E aí eu preciso falar assim: tu fez merda. Tu vai fazer merda de novo? Vai, lógico. Tu é moleque. Mas uma hora a gente aprende. Tem uns que não, tem uns que olha as coisa que tu faz e nem considera nada grave, dá risada, tem gente sinistra, tem gente nojenta, tem gente folgada, tem uns que são meio pervertido mas até aí normal (que depende do seu “até aí”) mas o grande ponto é que nem eu nem ninguém gostaria de falar da vida sexual na internet, que também é muito diferente da vida pessoal — e parece que isso ainda não ficou claro, porque tem também uma coisa que chama mercado de trabalho. Sintetizando: quem disse que se adiciona pessoas com segundas intenções?

Isso aí é sobre ser legal com os amigos. Ser legal com os amigos é falar: “pq vc fez isso, seu merda?” Faz parte. Na verdade é o mínimo. Pq eu já conheci pessoas que falariam na tua orelha umas 3 horas sem parar da merda que tu fez. Tem os que cortam. Tem os que ignoram, esperam seu comentário na foto de comida do insta e dão like. E sabe, já não tô no ensino médio. Eu tenho muitos amigos que me falariam da música, mas boa parte sabe que eu tenho um ego do caralho. Esses caras aí que fazem cover de metal são tudo assim. Mas personalidades empáticas à parte, diálogo tb não precisa ser screenshot que vc manda pra outra pessoa esculachar (com a tua vida inteira, algumas vezes). E do outro lado, vê se pega leve, fica de boa, e menos Pokémon. Como professor de inglês, explico a piada (que foi viral em 2013): o Pokémon tinha o lema “gotta catch’em all”), e como não coube essa totalidade de pokémons no pegar e “pegaremos todos” ia ficar estranho, colocaram “temos que pegar”. Mas agora imagina os caras das empresas de tecnologia falando “vai passar o rodo, vai passar o rodo! Rodomon!” Essa é a vibe da publicidade de certas organizações. Mas pra explicar isso pro meu filho, não sei o que eu falaria. Poderia mostrar o Pokémon, mas ele provavelmente não acharia a menor graça da abertura em Português de Portugal. Aliás, você sabia que Manuel Antonio de Almeida trabalhou com Machado de Assis, mas era superior dele? Não? Mas você leu os dois? E o Antonio Candido? Aí a gente percebe que o filho é muito novinho e se ele não tiver muito na vibe tem sempre um vídeo sobre filosofia que ele pode assistir no YouTube, mas enfim né, quiser comprar a camiseta do Neymar fica à vontade. Julgo não, pô. Tem outros jogos e tal. Inclusive, tem o canal da Rebecca Tripp.

A internet não é terra sem lei. A molecada só acha que a gente não conhece ninguém com malícia porque a gente não riu quando falaram lá em 1998 que a nossa mãe tinha três teta colorida, e agora talvez haja um vídeo. Mas aqui é país emergente. O que tem é o Sartori (o comediante, que sinceramente me incomoda um pouco). Então antes de falar que é legal você conhecer algo sobre tecnologia e indicar o podcast Tecnopolítica pra complementar com o Pivot (que vai melhorar seu inglês, eu prometo), queria falar de coisas mais perto da realidade. A gente quer muito propor coisas que vão trazer as soluções que a gente precisa e reduzir desigualdades, com oportunidade de trabalho digno pra todo mundo, e a gente vai além (mas isso é só nas mídias sociais ou na vida? Fica a questão). Ao mesmo tempo, a gente quer conhecer gente do bem. E eu, particularmente, curto movimentos de nicho e volta e meia descubro alguém que faço contato porque, veja só, aprendi a falar inglês. Algumas dessas pessoas eu cito aqui embaixo, mas infelizmente nunca nos vimos.

Por que eu acho que é válido falar desse problema da sexualização pra introduzir o assunto? Repito: existe vida pessoal e vida sexual, e nem todas as profissões lhe permitem viver como quiser. E a partir do momento que essas duas partes se encontram num “mundo digital” genérico ou “na internet”, como se a gente não tivesse percebido que virou o milênio, é o caso de ter conversas mais inteligentes. É engraçado. Hoje eu vi uma propaganda de uma empresa que se especializa em otimizar os relacionamentos com o cliente via WhatsApp. Mas não vi nenhum material falando sobre a maneira como a comunicação mudou dentro desse aplicativo, e de qualquer forma, a análise só pode ser feita pela empresa que é dona — e, também, americana. Uns apontam os desafios de se fundir empresas; outros, os problemas. Mas com o que estamos realmente lidando? E onde ficam as pessoas, como ficam os relacionamentos e o que fazemos com as expectativas (de reconhecimento, de apoio, de retorno financeiro, de crescimento profissional, de empatia e confiança em relação a pessoas distantes, de construir algo juntos — mas também, de país, né galera?)

Sobre as empresas, talvez essa matéria ajude. Mas como tenho fama de “ir de um lado pro outro com o cafezinho”, vamos recapitular: conhecer pessoas deveria legais deveria ser da vida, mas vc vai encontrar pessoas que não são legais. Já tratei do assunto de uma forma ou de outra, sugerindo o que fazer. Ninguém chegou e escreveu: “como conhecer pessoas na internet — for kids”. Aí deu nisso. Mas enfim, galera, vamos em frente porque acredito que as pessoas que leem têm maturidade e compreensão.

Já foi difícil, às vezes, separar a minha vida digital da minha vida real, mas isso passou. Queria falar de pessoas queridas, que me deram inspiração, que me ajudaram e que têm um potencial que talvez não imaginem que têm. Em outros tempos, eu era famoso por fazer listas (era uma coisa com os sets que a gente tocava na banda, em que eu organizava a sequência). Sem mais delongas:

PESSOAS DA ARTE

A Hayley é uma menina americana que eu conheci numas viagens de gente que lida com depressão, ouve umas música doida e gosta de uns lances diferentes — animação japonesa, no caso. A gente se troubou porque eu gostei de uma foto dela, muito antes dessa ondinha aesthetic, e desenvolvi uma amizade que foi ficando mais forte depois que eu notei o quanto ela compartilhava nas redes sempre com muita sensibilidade, e isso é visível inclusive na fotografia dela. Gosto demais dessa menina, que passou por umas coisas que talvez as pessoas não entendam, e já dediquei um vídeo a ela. Amor de pessoa, mora num lugar meio isoladão pelo que sei, mas acho que ela não saca que o trabalho dela tem uma puta qualidade, então visitem pra dar uma força pra ela porque ela realmente merece.

A Erica eu descobri quando ela tava começando a explorar a arte dela, primeiro acho que com desenho, mas com um traço muito peculiar, que eu gostei. apesar de não praticar. Era uma postagem atrás da outra, ela começou a fazer umas paradas em argila, e era tão foda que as pessoas realmente começaram a prestar atenção. Tem uma diferença básica nos seguidores da conta pessoal dela e a conta exclusiva pra arte, e eu queria muito apontar isso mas ela mesma já apontou. Sueca, não somos próximos, mas admiro demais tudo que ela faz. Se fosse pixação de banheiro feita pela Erica, eu emoldurava e botava, talvez, no meu banheiro.

Jemimah é das mais doidas que já conheci. Mas é uma coisa da forma que ela se comunica. A gente se cruzou num fórum não muito amigável, mas desde lá trocando ideia sobre música, bem esporadicamente, até que um dia saiu um pouco de uma postura bem anonimato pra mostrar suas ideias e a visão, que pelo que me contou, veio da Finlândia pra morar na Austrália. E ficou fazendo arte. Se quiserem recomendações de som, perguntem a Jem: é do tipo que compartilha memes sobre o Deafheaven.

A Julia é daqui, e conheci porque que foi atrás do som instrumental da Mutus, em que eu tocava bateria. A gente trocou ideia, ela ajudou a divulgar, fez amizade, e aí descobri aos poucos as coisas que ela faz. Tem muita gravura e experimentação, eu gosto desse tipo de coisa, e propus que a gente pensasse em alguma coisa junto, mas acho que ela anda fazendo uns vídeos. Queria mostrar mais coisa dela, mas acho que dá pra ter noção que ela sabe o que tá fazendo. Recomendo, e qualquer coisa chamem ela.

A Rionka é talvez a maior social workaholic que eu já vi na internet, atrás só da Amanda Palmer. Traços bem característicos, ela gosta de capturar cor e a essência do olhar, mas faz muita coisa de natureza, compartilha pensamentos de um jeito que sempre me deixa pensando (sendo ela da República Tcheca), e outro dia me mostrou uma banda espanhola meio indie que eu curti bastante. Gente finíssima, já me ajudou com posts motivacionais bastante, já fiz confidências a ela e ela foi super legal comigo, apesar da distância. Espero que o trabalho dela seja reconhecido de verdade.

ATORES INDEPENDENTES DA MÍDIA

Tecnicamente, não é mídia. Mas um dos blogs mais legais que eu já vi, que foi feito na plataforma do insta mas tem toda a cara de um blog, é o Irene no Céu. São resenhas de literatura e filosofia, numa linguagem acessível e simplificada, bem resumão, que inclusive ajudaria um povo a estudar e seria massa, se as pessoas conhecessem. Muitos falam da música como o Anthony Fantano ou o Tenho Mais Discos Que Amigos; aqui se fala da escrita e do pensamento. Recomendo demais, e pra mim merece prêmio nacional.

A Maria Popova, que nasceu na Bulgária mas se mudou pra Nova York, é daquelas pessoas que pessoalmente devem ser tão intimidadoras quanto o Christoph Waltz falando italiano com o Brad Pitt, mas claro, no aspecto linguístico. Ela é outra workaholic, mas me deu muito incentivo pra escrever em um contexto de vida onde eu me senti rejeitado por não saber o modo de vida e o modo de falar das pessoas com quem queria interagir, e vi todos irem embora; aí eu encontrei o trabalho dela, e vi que a tradução tem um valor imenso, e que as conexões que a gente pode fazer entre os pensamentos das épocas são fonte de inspiração todos os dias, se a gente procurar. E ela procura. Transformou uma seleção do blog dela, o Brain Pickings, num livro, se puder pedir na Amazon (coisa que eu quero fazer faz tempo, e aí pense na importância de se aprender inglês quando descobrir o acervo), faça isso.

Pra quem quiser acompanhar um cara da educação que fala bastante com o público em inglês, tem tb o Ivo Escobar, que dizem que é um cara com um certo senso de humor e trabalha com arte faz uns 15 anos.

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