Perder o foco: consequência ou sintoma do modo de vida?

Apesar dos pesares, a era conectada traz possibilidades que escapam à classificação em seus benefícios a nível organizacional, criativo, cooperativo e social. Afinal, organizar, criar, cooperar e transformar a sociedade parece uma missão importante a todos de bom senso e bom coração, correto? Essa percepção, inocente para o bem da humanidade, maximiza o potencial do trabalho em grupo e do que muitos poderiam metaforizar como o tal do fair play dos eventos esportivos. Mas é claro, a vida não é um simples jogo de intenções: ao percebermos nosso papel e questionarmos as circunstâncias em que tentamos desempenhá-lo, muitas vezes nos atendo à luta para mudar o que nos impede de crescer e aos privilégios acumulados daqueles que cresceram em demasia, é natural que a frustração e os pensamentos negativos tomem conta de uma mente que não tem o mesmo poder de processamento dos que nos antecederam – em suas lutas, no trabalho, na manifestação das vontades e no planejamento. Não nos compete, no entanto, avaliar todas as vontades, todas as lutas e todos os trabalhos: além da petulância de espírito, existe uma questão cognitiva, provada cientificamente, que é a capacidade do ser humano de manter o foco em determinadas características do mundo observável, muitas delas na área da linguagem, mapeada por muitos antes de nós. Para os falantes do Português, o peixe-dourado (goldfish, em inglês) representa o que a nossa memória é capaz de armazenar e como respondemos aos estímulos; contudo, convém ter em mente que os avanços da tecnologia não se traduzem em bem-estar social: apesar de termos opções de entretenimento que justificam o que é chamado de déficit de atenção, não somos o que consumimos. Ou seja, seguir um veículo para se manter alerta aos acontecimentos, bem informado, em relativa sanidade ou simplesmente para acompanhar o lugar-comum das discussões, como dizem nossos pais, não vai pagar as contas.

O comportamento mudou, como acontece desde sempre. A educação volta-se aos meios virtuais, inclusive aos jogos (com ou sem o intermédio da máquina); as interações se abreviam, se mesclam e se dissipam em relevância pouco ordenada (o que, como diz o ditado em língua estrangeira, pode ser a blessing and a curse); as relações se tornam frágeis demais à distância, ao passo que os sentimentos se multiplicam; mas, enquanto isso, cada transação bancária é uma nova razão para dedicar seu tempo àquilo que se julgou preciso. Como usamos nosso dinheiro, afinal? O consumo compulsivo se revela um problema complexo, mas a importância que damos aos que o praticam precisa de um olhar cuidadoso: assim como não se importar com o valor de um aparelho móvel (vulgo: celular) preserva a sua saúde financeira, o papel de um juiz não passa pelo mesmo escrutínio, para usar uma palavra bonita, do que o papel de uma caixa de supermercado. Mas antes que soem os alarmes da generalização, para não falar de sexo, é consenso que existem valores baixos e altos, desde a época de Cícero. Aos leigos: existe hierarquia em todo lugar. O sentido que damos às posições que ocupamos não pode ser ignorado para dar lugar ao sentido imaginado das posições que não ocupamos: em muitos casos, não gostaríamos de enfrentar as mesmas pressões que se exercem aos que ocupam cargos de liderança, com a observação de que a representatividade feminina em tais cargos dá índices de melhora, mas há movimentos contrários. É possível se projetar na vida sem seguir normas e convenções? O meu lado musical diz que isso é mais complexo do que se pensa, mas a praticidade da vida exige uma reflexão sobre o que é preciso para ter um lar em que prospere a paz e o conforto, além do aroma de uma flor posicionada frente à janela, no jardim. E assim como as casas e apartamentos estão longe das favelas e da rua, o seu comentário nas redes sociais sobre a política de incentivos fiscais não faz parte da biblioteca do congresso – que dirá os seus memes.

A sensibilidade frente à gama de conteúdos da rede e as escolhas de aprovação, reprovação e neutralidade que fazemos compõe um dos pilares da nossa vida digital e como administramos reações, considerando suas facetas; a compreensão de que a realidade pode estar se transformando profundamente, mas talvez não passe de uma ameaça a tradições do mundo corporativo, que nunca estabeleceu um salário mínimo universal, não registra trabalhos desempenhados e confia na má remuneração como estratégia de negócio, além de não educar para transformar a sociedade e não exclusivamente gerar lucro, compõe o outro pilar. Numa sociedade da informação, onde o apelo visual é cada vez mais agressivo, apesar das excelentes ideias dos que se esforçam para trazer ao mundo conceitos sólidos e agradabilidade, o que fala mais alto é o que se transmite num sorriso: talvez assim esqueceremos o contexto de fogo e fúria de governantes que se travestem de bons negociadores para ter a asserção de que o desenvolvimento só chegará aos que correspondem aos interesses de seus parceiros, sempre persuasivos, mas curiosamente, nunca carentes.

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Imagem: LEADyia (Flickr)

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Nota: como escrevo em um blog e não conto com apoio financeiro, muitas vezes uma questão essencial é deixada de lado. Recentemente, criei um Patreon para receber doações de pessoas que eventualmente confiarem nas temáticas que apresento e na abordagem (não sem ressalvas, é claro). Talvez, se você lê o blog e quiser compartilhar com alguém do mundo em inglês, isso possa ajudar bastante. A imagem que usei veio de alguém que conheci numa busca simples, mas que tem um trabalho que não sei nem descrever (sabe quando faltam palavras?) e tentei fazer contato pra autorizar o uso, mas provavelmente deve trabalhar pra alguma revista ou algo do tipo. É um trabalho muito bom MESMO. Impressionante. Deixo o link aqui pra quem gostar de fotografia (e reconheço que a discussão pelos direitos de reprodução precisa ser abordada).

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