Educação e o fator psicossocial: rebeldia e a imperfeição de modelos

Os sistemas de informação transformaram a ideia de relevância em todo o histórico complexo do desenvolvimento da mídia. Nativos digitais provavelmente pensariam: “ok, o VHS é obsoleto, mas como eu nunca conseguiria administrar uma locadora, é melhor ficar quieto”. Mas esse não é o ponto: ninguém aprende o que é obsoleto (a palavra) até pegar um bom texto pra analisar, o que pode ou não ser uma tarefa de sala de aula. Ninguém aprende princípios de administração aos 13 anos de idade, mas com certeza têm conta no Instagram. No entanto, nada dura pra sempre, e talvez precisemos conversar sobre o TikTok e o YouTube Kids, mas sem aquele papo de direitos autorais, sem grandes ideologias do conteúdo agradável, e principalmente, sem sugestões automatizadas de grandes influenciadores. Talvez. A quem cabe essa tarefa: pais, escola, sociedade ou a própria mídia?

É evidente que são apenas exemplos. Ao que tudo indica, ninguém sugere aplicativos por acaso, e são muitos. Se um adulto escolhe se inscrever em uma lista de email, isso garante que leia artigos todos os dias, forme suas opiniões com parcimônia e atentividade, além de assimilar dados fundamentais e compartilhar o que merece destaque? Apontará erros, identificará tendências além das discursivas, e lidará com as consequências — cada vez menos transparentes? Não importa, para tantos. Sua página tem números. Seus leitores foram superiores à média histórica, passaram os concorrentes. Mas hoje se pensa em conteúdo orgânico, não somente em visualizações — na verdade, apesar de todos os montantes das campanhas publicitárias, sempre foi assim.

Adolescentes convivem com a publicidade no espaço privado. Esse é o grande problema moral do século, mas é inconveniente apontar anúncios capitalistas como uma deficiência abominável. Afinal, todos sabemos que o “influencer” só precisa falar que tá com fome pra receber comida de graça, não é mesmo? Muito bem: todo aluno só precisa dizer que não entendeu para que o professor cumpra um papel mais digno que seguir o plano de aula. Isso não tem absolutamente nada a ver com publicidade, mas hoje se paga por aulas online (além do acesso e também pelo dispositivo). As escolas, com espantosas exceções, podem proporcionar acesso livre à internet e equipamento, mas isso é uma discussão bem antiga — e que falhou miseravelmente, não só no Brasil. Dados do INEP, TIC Educação e do CGI revelam um gravíssimo problema de constatação das dificuldades além da gestão: enquanto 95% das escolas, ao que é divulgado, possuem acesso à rede, as conexões são lentas (fala-se em 1Mbps) e 55% do acesso é feito em laboratórios de informática, por sua vez usados por apenas 30% dos professores — e convém lembrar: não se fala da frequência nem do conteúdo, muito menos se propõem modelos de atividades. Ou seja: a tal da revolução digital só funciona para as grandes empresas. Não existe, na moderna e exigente BNCC, menção de exemplos de conteúdos online. Mas sabemos: a realidade se molda, cada vez mais, pelos hábitos digitais. Quem ganha, e como podemos abordar o assunto do ponto de vista pedagógico, sociocultural, sem falar da grana?

A reflexão pode partir do princípio de que a escola forma pessoas para o exercício da cidadania. No mundo lá fora, uma vez cumpridas as obrigações curriculares e superadas as barreiras e os desafios da ordem social, o que define sua atuação é o trabalho. Naturalmente, existe competição. Mas não estamos inseridos no globalismo? Não sabemos que a ideia de conectar pessoas vai além dos interesses, mesclando também preocupações, princípios, fins e meios? Sugiro uma reflexão filosófica e propositiva do britânico Bertrand Russell, que escreve (pense nisso depois) em 1932: “a crença na livre competição foi usada por empregadores como argumento contra o sindicalismo, o que ainda ocorre nas partes mais atrasadas da América. Mas a competição entre capitalistas diminuiu de maneira gradual. A tendência é que toda uma indústria se combine nacionalmente, de forma que a competição passou a se dar sobretudo entre nações, com uma diminuição da competição entre as diversas empresas dentro de uma nação”. E aí, cedo demais pra falar sobre o plano americano de parceria com a sueca Ericsson e a finlandesa Nokia para contrapor a tecnologia 5G da chinesa Huawei, ou nada a ver?

O fato é que essa ideia de competitividade é a essência do livre mercado. Mas faltam psicólogos pra explicar como isso afeta a todos (eu, você, filhos que você tem ou pretende ter, mas talvez nem tanto a sua avó, e que Deus a tenha se for o caso). Não sabemos muito bem como os mais velhos lidavam com o mundo, mas alguns deles lidaram muito mal: tivemos duas Guerras Mundiais no século passado, e muito sangue derramado nos anteriores. Fala-se com benevolência e algum nível de empolgação sobre uma “guerra da informação”, mas sempre esquecem de mencionar que ninguém dá a mínima pra nova atualização do Windows, e talvez muito mais pra originalidade de uma letra de rap. Claro, isso incomoda; mas voltamos à questão dos papeis (da família, da escola, da sociedade, das mídias). Nas redes sociais, fica claro que há um excesso, apesar dos filtros (um ponto que, pessoalmente, não me sinto preparado pra discutir em detalhe); mas será que o que assimilamos de fato contribui positivamente para nossa formação, como pessoas, e não números estatísticos do sistema educacional ou potenciais consumidores? O que pode ser feito pra que essa formação traga novas formas de encarar os desafios que o mundo enfrenta, e nós com ele? E lá vem o cara de novo: “há uma tendência perigosa — em todos os países da Europa Ocidental, mas não nas Américas do Norte e do Sul — a infligir aos jovens uma educação tão excessiva que danifica a imaginação, o intelecto e até mesmo a saúde física.” Eu me sinto inclinado a comentar a questão da identidade e da comunicação, pois não falo espanhol, francês ou alemão, mas sei que o búlgaro, o tcheco e o polonês também não. Ou seja: se quisermos ter chance em nos entender, é melhor partir do princípio que o inglês é uma língua que cumpre um papel social. É claro, o Google Translate também, mas acho que é sempre bom ser realista…

E o que eu quero fazer com a minha habilidade de comunicar minhas ideias, sentimentos e percepções de mundo? A princípio, melhorar essas habilidades — mas do que e com quem você fala? Não ter essas habilidades é um gigantesco entrave, e contribui para um isolamento que pode evoluir para ideias radicais de nacionalismo, por vezes aliadas a uma política que sempre pode ser discutida, mas isso não é uma garantia, se é que me entendem. Talvez o pensador britânico possa ser interpretado num sentido mais metafórico: “o homem cuja língua é cerceada por leis ou tabus contra a liberdade de expressão, cuja pena é cerceada pela censura, cujos amores são cerceados por uma ética que considera o ciúme melhor que o afeto, cuja infância foi aprisionada em um código de boas maneiras e cuja juventude foi talhada em uma ortodoxia cruel, sentirá, contra o mundo que o tolhe, a mesma raiva da criança cujos braços e pernas são imobilizados.”

Mas será que essa, digamos, paralisia não se dá no sentido que acompanhamos (creio eu) na proposta do socialismo democrático, que aponta como única solução uma grande mudança estrutural que vem de baixo pra cima? Qual seria o modelo, para além da linguagem, que por si só já traria discussões para uma década — e seria, apesar da relevância, abandonada assim que surgisse a grande inovação tecnológica que cumpriria, supostamente, a função de unir o compromisso social com a urgência dos mercados? Não se tem resposta, mas depositamos nossa expectativa nas lideranças, não somente as de cargos oficiais, que fique claro. O que precisa ser discutido não é o conceito de liderança ou a legitimidade dos títulos, mas sim, defendo, o que torna possível apontar os caminhos, conhecendo os fatores em jogo. No fim, é isso: tome boas decisões, a todo momento. Mas errar é humano, e robôs não podem ser juízes, apesar de o princípio lógico parecer falho para pessoas, sem exagero, idiotas. Ninguém é perfeito, mas a sociedade exige — não apenas boas decisões, mas contribuições diversas, o que inclui, apesar de parecer pouco importante para alguns setores, a produção artística. Freud explica (em 1930): “apenas através da influência de indivíduos exemplares que as massas reconheçam como seus líderes é que elas podem ser movidas ao trabalho e às renúncias de que depende a continuidade da cultura. Tudo anda bem se esses líderes forem pessoas dotadas de uma compreensão superior acerca das necessidades da vida e tenham se resolvido a dominar seus próprios desejos impulsionais. Mas há o risco de que, para não perder sua influência, façam mais concessões à massa do que esta a eles, e por isso parece necessário que disponham de poder que lhes permita ser independente dela”.

É legal não esquecer que o maluco era alemão. Mas de qualquer forma, não acho que a cultura tenha um efeito negativo, à medida que as tradições pedem mudança e o sentimento coletivo, tantas vezes resultante em situações de negação dos privilégios das minorias (a aversão ao poder, mas também à concessão de direitos básicos, por quem o detém) mova uma grande máquina de manutenção do famoso status quo e legitime uma renúncia à satisfação dos impulsos, e devo dizer que não tenho conhecimentos profundos sobre o pensamento lacaniano; mas falamos de cultura digital, e alguns pontos da nossa história não parecem estar bem esclarecidos. Mas apesar do pedantismo inevitável (costumo falar com muito menos autoridade que isso, e tenho plena consciência do quão facilmente ela pode ser contestada e mesmo ridicularizada por uma esperança distante de passar boa impressão, além da prática do autor), penso que é importante voltar à questão educacional. Em 1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente define: “é dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do Poder Público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária”. Artigo Quarto, procura lá (sou apenas um blogueiro desempregado). Mas veja bem: desde quando a Lei é cumprida? Se fosse, isso não precisaria ter sido proposto dois anos após a Constituição Federal: alguém percebeu que faltou alguma coisa, sabe? Pense no problema em propor soluções para a era digital: só nas violações aos itens respeito e dignidade, já teria muita gente na cadeia; mas tem também o lazer. E sabe quem cuida disso? A publicidade. Querem discutir o item profissionalização, ou querem a minha história pessoal sobre o aplicativo Facebook Workplace?

Nem sempre a rebeldia se justifica. Mas só você pode chegar a essa conclusão, se o ponto é ter um aprendizado efetivo e edificador. Entre crises de sentimentos coletivos, combatividade sem propósito maior, escassez de recursos e ideias, marginalização socioeconômica e trilhões imaginários circulando entre os homens selecionados pela rede Bloomberg, a mais sincera contribuição que eu posso trazer para o debate, sabendo que vou ser contestado sem perdão, é o quanto eu acredito na maneira de pensar do tal do britânico: “a competição é negativa não só como fato educacional mas também como ideal a ser apresentado aos jovens. O mundo não precisa de competição, mas de organização e cooperação; toda crença na utilidade da competição se tornou um anacronismo. Mesmo se a competição fosse útil, não é, em si, admirável, já que as emoções às quais está relacionada são as de hostilidade e implacabilidade.”

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