Cidadania em rede: o exercício do imaginário

Minhas visitas à Biblioteca Mário Faria, o mais pacato e desprestigiado centro de cultura da cidade de Santos, apesar das placas de agradecimento às lideranças partidárias, foram muito produtivas. Aprendi a pensar a filosofia numa ordem histórica, renovei meu interesse pela narrativa e suas técnicas, ganhei muito ao ler originais de análises geopolíticas, e tenho por certo que uma notícia passou batida, como se diz por aí, no imbróglio: a rede Amazon vem para o Brasil. Além dos princípios da morfologia e do sistema tonal (aquele papo de borboleta e círculo perfeito), poderia me perguntar se a leitura e o reconhecimento do fato andam de mãos dadas, nos tempos em que vivemos; mas já se apontam várias questões não-esclarecidas: os volumes disponíveis, a essência da doação, os interesses, o tempo gasto, o idioma, a ideia de biblioteca na era da conectividade, a falta de propósito vital, entre outros temas, digamos, espinhosos. Olhando para o futuro, ou mesmo o presente de quem o usufrui, penso que alguém deve discursar sobre blockchain em uma escola particular da cidade, assim como em outras, sem dúvida; mas na rede pública, devo revelar que tive minha pesquisa em educação e sociedade ignorada pelo município, que deve ter considerado um questionário sobre hábitos digitais inapropriado para a era das milícias, ou talvez, numa hipótese benevolente, desconfiado de alguma tática para alistar jovens indefesos no ISIS, com o primeiro ato definido como uma explosão de fogos de artifício dentro do Museu do Café e da Pinacoteca Benedicto Calixto. Bom, é lógico que não tem graça. Na verdade, tratava-se de um desejo paternal, em resposta a uma situação de exclusão, rejeição e um termo legal que me foge à cabeça, que se usa quando o responsável não dá as condições para o sustento da família. Mas essa fica pra próxima.

Aqui, se fala muito de mídias sociais. Suba a Serra do Mar, pegue um Uber do Jabaquara até o Itaim e tenha à sua frente um escritório do Google. Mas tem que ver essa categorização aí. Não sei se é possível seguir esse fio: os serviços de correio eletrônico, termo desses velhinhos que hoje não compram Trakinas pro neto se ele for flagrado novamente com a calça abaixada pela metade no conforto de sua cama, são convenientes demais para ser tratados como serviços. Antes, se falava em domínio público da informação: um século, e os seus escritos poderão ser disponibilizados a todos sem custo, considerados patrimônios culturais; adentramos a segunda década do milênio, disputadamente ou não, e isso acontece em tempo real: ninguém dá a mínima para o conceito ou as medidas legais, e não me venha querer distorcer a história, pois isso é coisa de artista maconheiro. Seja artista ou não (podem julgar como egocentrismo a mera menção ao problema do incentivo na indústria), todos sabemos que os dados são a nova cédula de identidade, mas tente se cadastrar num domínio de pagamento internacional ou nos serviços de criptomoedas e pasme com a exigência da frente e verso do seu RG. Tenho um caso curioso sobre trabalho não-remunerado e qualidade da imagem em pixels, mas vou pular essa parte, porque convém se ater ao problema geral. A nossa comunicação, já dizia Orwell, se faz na presunção de que o condicionamento inegociável é a medida da nossa existência: “já parou pra pensar, Winston, que a escravidão é a liberdade?”

Pois bem. Olhemos o concreto, naquela distinção básica entre URL e IRL. Ainda não indenizaram os estados do Nordeste pelas manchas de óleo provenientes do navio grego, pois ninguém fala a língua deles, não é verdade? Pense nisso: a Grécia fica tão perto dos sauditas e dos marroquinos que é melhor deixar quieto. E assim se faz a política, em modelos tais como esse, mas de proporções ajustáveis ao gosto do freguês. Lembro de compartilhar um pensamento: o que a juventude italiana aprende sobre história no período escolar? Eu não faço ideia. Mas Deus me livre discutir com Giorgio Agamben.

De volta aos hábitos jornaleiros: não precisamos de mais vidas dilaceradas na TV para encontrar a resposta de nossos problemas essenciais. Não é conveniência, é sensibilidade, sabe? O saneamento no Brasil continua numa situação grave, a extrema pobreza existe, apesar dos comparativos, o déficit habitacional é uma realidade assustadora, a violência por vezes converge com ela (leia novamente: por vezes) e se normaliza antes da vida adulta, os salários continuam a categorizar pessoas antes de suas atividades, e alguns acreditam na polarização mais pelas conversas que ela gera do que pelo que está em jogo. Aqui, acho que cabe falar um pouco dos Estados Unidos da América segundo George Friedman, um cara que eu nunca tinha ouvido falar, mas que escreveu um livro legal que achei nessa biblioteca que mencionei, intitulado “A próxima década”: o imperialismo não foi intencional. Construiu-se um império da informação, mas foi sem querer. É claro, para o pessimista, isso traz revolta e depressão em doses alternantes; para o otimista, tá tudo bem: informação é uma delícia, manda mais que tá pouco. Mas parece necessário questionar: o que, exatamente, podemos dizer que não foi premeditado? Não sou eu quem julga o americano ou a americana, mas confesso: às vezes, sou o primeiro a fazer isso, pois quem se envolveu fui eu. Pela informação ou pelo contato humano? Com licença, pois gosto do tom retórico sempre que a possibilidade se mostra.

Eu fico imaginando o marido explicando pra esposa que fez conta no Ashley Madison, aquele site pró-adultério, mas foi sem querer. Ele chega a essa brilhante conclusão somente após descobrir que hackers invadiram o site e coletaram as informações de todos os usuários, cruzaram as referências e venderam o pacote a uma empresa de análise em big data, aquele termo que ainda não é ensinado nas escolas. Não perca o fôlego: teve também um ataque à Yahoo! Mas a Verizon já resolveu. O problema é que aqui não sai notícia de ataque à base de dados da Vivo: imagine a repercussão na performance do Messi, jogando pelo Barcelona? Seria um escândalo em Buenos Aires. A exportação do alfajor chegaria a índices insuportáveis. Veja só: o que diriam os cariocas se o carnaval trouxesse críticas à KGB? Não temos condições. Seguiremos com o lema do pão que nasce torto e nunca se endireita. É claro, as atualizações são necessárias, mas a provocação cumpre seu papel assim como a Megasena e o jogo do bicho. Vamos todos acampar em frente ao prédio da Empiricus na Avenida Faria Lima, protestando a especulação das ações da Vale e da Ambev, ou vamos seguir em frente com foco, força e fé? Talvez tocar um maracatu, só por prazer mesmo? Berimbau? Bongô? Reco-reco? Quem sabe uma cuiquinha?

É uma digressão, galera. Lá fora, o Brasil existe nas riquezas naturais, mas nunca na linguagem. Nossa literatura, nossa música, nosso humor: sabemos dos inimigos dessas frentes. Não surgiu ninguém pra falar que a nossa cultura é pirateada, porque o argumento não beneficia o business model do camelô, e se a feira do rolo for cancelada, aí fodeu. Mas e se alguém dublasse a sua voz no papel do filme da sua vida? Não é uma questão sobre o que é conteúdo original, é mais sobre o que sempre fizemos e como vamos mudar. Isso inclui os assuntos que tratamos. Temos apoiadores no jornalismo independente e no tradicional, mas onde está aquela base comum que só quer que as pessoas sejam felizes? Talvez seja uma reação aos produtos importados que usamos, que geram um desconforto que culmina na ira e perda da razão. Mas isso nem faz sentido. Quer um exemplo? Joguei sim o celular na parede, fiquei sim sem acessar meus aplicativos preferidos por uma semana, mas acho que mereci. E fica aí o ponto da discussão: apesar de ser verídico, prioridade é uma ideia muito elegante.

O fato é que eu sei pouca coisa dos Estados Unidos, apesar do que dizem os números. Sei de empresas de investimento enormes como a Goldman Sachs, de fabricantes como a Apple, empresas do porte da Microsoft, redes como a CNN, a indústria de Hollywood, o Facebook, aquelas gigantes do petróleo. Entretenimento massificado, categorias pra todos, e uma educação que se pretende competitiva, mas esquece de olhar a questão imigratória, o problema dos recursos naturais para energia, a saúde da população. É notável que se lembrem de fazer uma postagem sobre tudo isso, assim como o fato assimilado de o conteúdo de mensagens, vídeos e um histórico completo da comunicação de indivíduos não ser motivo de alerta. Mas eu lhe pergunto: existe um espelho da América? Se isso for verdade, preciso andar mais na rua, e não ficar trancado dentro de casa, insistindo no foda-se à CLT. Mas há um ponto importante, exterior à narrativa pessoal, que é aquele comparativo da exploração do trabalho: alguém na Zona Franca saberia explicar como uma empresa paga 20 bilhões de reais em indenização por interferir nas eleições de um país e somente 6 milhões (sic) por interferir nas de outro, sendo que os limites geográficos e os índices populacionais são equiparáveis? Aí eu conto com o Joãozinho, que levantaria a mão e colocaria o bom senso na cabeça do professor utópico: “a internet é deles, eles que inventaram”. E fim de papo. A menos que Antonio Cândido volte ao mundo para falar de Democracia em Vertigem.

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