Cultura digital e o lugar da educação: pensamentos transitórios

Uma das palavras mais evitadas por setores do conservadorismo secular, aquele que se entende morfologicamente por correlato à tradição voltada à preservação de bens, posições de poder e moralismo ontológico, é a tal da cultura. Não se trata de uma combinação infeliz de adjetivações aleatórias, como alguns escritores podem ter ouvido ao longo da carreira, seja em berros com observações contundentes na rua próxima ao lar agraciado por resquícios de conforto, seja na transposição do espaço público do nosso tempo, que se dá nas tipificações discursivas dos recursos eletrônicos. Conservador é aquele que conserva; mas como adquiriu? Cabe discussão, em outros setores que não aqueles que se utilizam das palavras-chave do antagonismo ou defesa de princípios ideológicos simplesmente para traçar linhas de separação e fazer escola com ou sem ferramentas analíticas, o que se traduz, também, em poder e moralismo; mas o cenário atual remete a uma pergunta mais profunda do que moral ou poder: temos ideologia, considerando os esforços pelo apagamento das reflexões históricas e obsessão dos estilos de vida presentes em constante, esvaziados do temor consequente, concentrados no último instante da experiência consciente, em momentariedades auto-suficientes, traduzidas num ethos erroneamente apropriado em que nada parece ter valor além do abandono da coletividade de embasamento em favor da vontade alienadamente séquita?

São muitos os que perdem de vista o sintomático para trazer novas menções às quase institucionalizadas matrizes do mundo tecnológico para explicar como vivemos, longe da utopia harmoniosa, produtiva, inspiradora, e cada vez mais familiarizando-se com uma ignobilidade permeada de cinismo, com a banalização da atratividade comunicativa, com o sentimento inerente ao espírito moderno que se dissipou em um processo incógnito de perda automatizada de relevância em todos os níveis. O grande erro pode ter sido a abordagem: quem disse que as gerações posteriores à de docência escrivã gostariam de ouvir falar em uma simulação de xadrez com máquinas? Estamos na era do apelo visual e dos processos cognitivos não revelados, da experimentação estética ao custo de reputações familiares, da insignificância dos termos concretos de despesas obrigatórias transferidos à amplificação do primeiro argumento carregado de uma pitada patética de humor nas inclassificáveis redes sociais. Será que não erramos no termo? Ou terá sido o caso de havermos indicado os mestres da publicidade e propaganda para vender conceitos de segurança, liberdade e respeito enquanto se esquematizava o futuro minimamente afetado das classes mais abastadas ao custo de uma impressão racionável de padronização da justiça, de um movimento natural da economia dos sentimentos e motivações, do exagero nunca exposto da balança ulterior que já produzia nos antigos o discernimento de que o comum e o extraordinário são responsabilidades de entidades diversas, ao passo em que o mísero conceito de felicidade transita entre os poderosos com audácia equivalente ao mais hipócrita dos demônios?

Tudo transita, mas os navios e seus tripulantes condensam a delonga das negociações de escritório em poemas nunca lidos, enquanto os jovens promissores enxergam uma falha na rede como o fim dos tempos, classificando-os em milhares de movimentos irreconhecíveis para si, embora devidamente mapeados pelas agências digitais, nunca concomitantes às colheitas que aguardam a natureza dar respostas que desafiem o espírito idiota do humano destrutivo e marcadamente avesso à narrativa conciliadora, contrastivo aos frutos que hão de se colher na megalópole. Chegamos ao ponto de agregar a comercialização do sexo ao funcionamento indissociável da sociedade dos dados e trazer em contrapartida um dispensar conformista a temas como a urgência da fome alegando uma disparidade de caráter invisível aos locais; acusamos pensadores em distúrbio de progressistas mancos; abandonamos a escala geográfica ao mesmo tempo em que traçamos grandes metas de polarização, sem avaliar a complexidade dos rituais, da diversidade étnico-linguística e abraçando a bandeira dos tabus para legitimar as piores atitudes do cidadão.

É possível pensar o futuro da educação pública brasileira, em meio a problemas de desenvolvimento tão centrais e estarrecedores? Onde existe desenvolvimento equiparável aos níveis internacionais, será que é justo trazer à prática das salas de aula uma justaposição ao ritmo da competitividade de mercado que faz dos anúncios uma prévia do que pessoas reais buscarão como realidade e luta diária, ao incorporar suas identidades, todas passíveis de controle e molde, ao sistema global de predadores sociais travestidos de habilidosos precursores da inovação e das soluções de conflito, nunca confundindo generalizações benéficas com flertes anti-democráticos? Devemos explicações, e quando houver honestidade nas respostas às imposições da era da conectividade, a próxima transformação estará em curso para dissipar o foco das nossas atenções e minimizar a problemática da exclusão, mais uma vez.

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