É tudo cinco estrelas — menos a sua gestão

Jovens e adultos nunca chegaram à concordância uníssona de uma boa decisão em ocasiões muito diversas e abundantes. Conhecendo um pouco do lugar onde se vive, é possível que algumas destas sejam devidas a um bom prato, à pintura da sala de estar, à energia de uma rede balançando em algum lugar do planeta, e quem sabe também seja justo incluir a mais básica delas, apesar de todas as citadas apresentarem suas nuances: a beleza de alguém que gostaríamos de conhecer, mas que, hoje em dia, pode estar muito mais distante do que a empatia fácil de uma competição culinária, a satisfação de um programa de decoração, a essência de uma transmissão esportiva e tudo que está em jogo quando decidimos investir o pouco tempo que temos em conhecer pessoas, que tantas vezes têm mais o que fazer.

Se os estudiosos e profissionais das respectivas áreas me perdoarem pelo resumo, tenho certeza que minha teoria pode encontrar relações com as transformações da mídia e sua relevância. É muito simples: a gente pode aprender a cozinhar, mas não cozinha; tem a ideia de arrumar a casa, mas deixa quieto; roga uma praga (eufemismo) no outro time, mas nunca vestiu uma chuteira… e adivinha qual é o próximo exemplo?

Pois é. Teoria e prática; falar demais e fazer de menos; prometer e não cumprir; saber e aplicar; ter interesse, mas não procurar: tudo isso tem a ver com a mídia que conhecemos hoje. O YouTube veio pra ficar, mas o Netflix parece que também, e ambos perdem para outros tipos de vídeo, dependendo do horário; o streaming tomou o lugar do download, e quem comemorou sofre com crises de ansiedade; os aplicativos de mensagem se multiplicaram, mas a fidelidade é tanta que anunciantes elaboram planos de tomar essa última plataforma comum. Será culpa das mensagens de grupo, do gemidão ou do Jeep Renegade?

Meus pensamentos sobre empreendedorismo são escassos, são raros, talvez sejam inapropriados e transitem entre as tradições das décadas que não vivi e tudo aquilo que tive como experiência no mundo lá fora, com pessoas que conheci, sem sair do lugar, mas pobre coração. E do outro lado? Quem disse que não pensaram sobre tudo isso, tendo as experiências delas? Se tentaram descrever, ou o círculo social fez isso em modo automático, numa espécie de Bluetooth filosófico, a inovação merece fogos de artifício. Mas nem todos tiveram acesso, e é justamente esse o problema além da motivação empreendedora: a motivação social, o olhar para o outro, se colocar no lugar do outro, sentir o que o outro sentiu, compreender suas dificuldades, formular soluções baseando-se nos problemas situacionais identificados, traçar mapas antes das metas. Tudo isso tem seu valor.

Discutimos a internet das coisas, mas esquecemos das coisas de internet. Desapega, dizia uma anunciante. Não é nenhum segredo (claro, com exceção de um relatório de 900 páginas da inteligência americana dos últimos 18 anos) que o jovem, seja das Américas, homem ou mulher; seja o britânico ou australiano curioso; os pais preocupados do interior sueco; as grandes empresas do comércio holandês; as fabricantes belgas; a nação espanhola; os pensadores franceses; a logística alemã; os clássicos russos; a indústria chinesa ou a cultura japonesa: cada um à sua maneira e através dos seus meios, têm importância para quem mora no Brasil e participa da globalização, localizada ou não. Há outros. Não há sombra de dúvida que articular argumentos sobre a praticidade do multiculturalismo em rede seja um desafio extra-linguístico, senão moral e crítico, em pontos diversos. Contudo, a quem perguntamos?

Sou a favor da divulgação cultural, mas não de toda e qualquer cultura. Isso permitiria dizer que a cultura machista, racista, persecutória, conservatória, revanchista, totalitária, cada qual em seu nível de aderência, teria representantes a poucos metros ou cliques de uma interação pela qual estaria ansioso em iniciar. Não é o caso. Sou a favor do ensino prioritário, mas não para os que pagam material exclusivo, em dólar, e saem atirando contra as massas desconhecedores dos dilemas de expansão do conhecimento, inimigos do pensamento e da reflexão de apoio social, aniquiladores de direitos e hostis ao processo democrático. Defendo o acesso, mas também me defendo.

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